No chamado atentado da Rua Toneleiros, o Major Vaz atira contra o pistoleiro que se aproxima atravessando a rua. Lacerda empurra seu filho para dentro do edifício e passa a atirar. O Major Vaz é morto com um tiro nas costas. Lacerda se recusa a entregar sua arma à perícia. Um tiro de pistola calibre 45 amputaria o pé de qualquer um. Não o de Carlos Lacerda. Ali era o início do fim. Ali a Aeronáutica cria um poder paralelo: a “República do Galeão”. E amplia o cerco para derrubar Getúlio Vargas.
II
O interrogatório é feito de forma impiedosa. Gregório Fortunato é levado de avião sobre a Baía da Guanabara, ameaçado de ser jogado lá de cima. Há ameaça de convocar o filho e o irmão de Getúlio para depor no tal Inquérito Policial Militar feito no Galeão.
III
O clima é de agitação. A Tribuna de Imprensa, de Carlos Lacerda, a cada dia tem uma nova manchete escandalosa. A CIA, criada dois anos antes, tem no Brasil o seu primeiro grande laboratório de agitação política a partir da cooptação e do financiamento de grupos internos. Há pouco ocorria a CPI da Última Hora, do jornalista Samuel Weimer, de formação estimulada pelo próprio Samuel: todos os jornais – a começar pelo O Globo e passando pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand deviam fortunas ao Banco do Brasil. Mas Samuel, que pagava as dívidas em dia, é que teve que se explicar em uma CPI.
IV
Na madrugada do dia 24 de agosto Getúlio aceita a proposta de se licenciar do cargo. Mas é avisado pelo Ministro da Guerra de que não poderia retornar ao cargo. Ou seja, estava deposto. Getúlio vai ao seu quarto e dorme, exausto da campanha incessante que contra ele era desenvolvida durante todo o seu mandato.
V
A CLT, criada quando ainda era Ditador, nunca fora aceita pelo patronato. A estabilidade no emprego era tida como uma afronta. Representava, finalmente, a conclusão da abolição da escravatura, iniciada em 1888 e somente concluída quando tinha poderes ditatoriais. Inspirada no Código de Trabalho Francês, teve que ouvir acusações de que a CLT tinha inspirações fascistas. E sendo Presidente do único País, fora EUA, Inglaterra, França e União Soviética que mandou tropas para combater Hitler e Mussolini, foi acusado de simpatizar com os nazistas.
VI
Toda a base da industrialização brasileira veio com Getúlio. Toda a base social, toda a legislação trabalhista. O Brasil começava, finalmente, a se civilizar. Mas era demais para a velha elite escravocrata, que agora posava de democrata.
VII
Os ditos “democratas” de então foram aqueles que derrubaram o próprio Presidente eleito democraticamente, em 54; que tentaram impedir a realização das eleições que resultaram no Presidente Juscelino Kubitheck; que tentaram impedir a posse de Juselino; que fizeram dois levantes armados contra Juscelino; que tentaram impedir a posse de Jango quando da renúncia de Jânio; que finalmente mergulharam o País nas trevas em 1964. Os tais “democratas” de então, que criticavam Getúlio, eram os golpistas que, finalmente, consumaram seus dois golpes: o de 64 e o de 68, esse último a edição do AI-5.
VIII
8:25h da manhã de 24 de agosto de 1954. Após dormir um pouco, Getúlio Vargas empunha o revólver calibre 32 e o leva em direção ao peito. O estampido ecoa no Palácio do Catete. O Presidente é ainda encontrado com vida, contorce o rosto na tentativa de sorrir para a filha Alzira, que o amparava.
IX
A notícia é imediatamente divulgada, assim como sua carta final do povo brasileiro. O povo acorda do torpor em que estava mergulhado, descobre que estava intoxicado pelos discursos entreguistas da UDN, de O Globo, dos Diários Associados, da Tribuna da Imprensa. A massa enfurecida sai a depredar exatamente esses órgãos. Subitamente se dava conta de que seu Presidente, o único Presidente brasileiro que traçou um projeto para o Brasil, tinha sido vítima de uma campanha desumana, e que seu suicídio era a única forma de fazer ressurgir a verdade.
X
Décadas se passaram para tentar destruir o legado de Getúlio. Houve a necessidade de um golpe militar para acabar com a estabilidade no emprego. Fernando Henrique Cardoso declarou que “iria sepultar a Era Vargas”. E “flexibilizou” o monopólio do petróleo, permitindo que bacias gigantescas, de riquezas inimagináveis, fossem vendidas a preço vil às multinacionais que assalariam aqueles que vendem suas opiniões, ao tempo que privatizava a Companhia Vale do Rio Doce e o subsolo nacional.
XI
Em 24 de agosto de 1954 as forças entreguistas venceram. O Brasil tentou retomar sua história com João Goulart, a seguir deposto. Nosso processo civilizatório foi interrompido ali.