Nâo se sabe, ainda, qual a extensão da crise, quais os seus efeitos. Mas o mundo mudou.
II
A partir de Reagan teve início a “era yuppie”. Eram os jovens do mercado financeiro que alcançavam seu primeiro milhão de dólares antes dos 30 anos de idade. Reagan, republicano, e de outra parte Tatcher, conservadora, no Reino Unido. Ali teve início a era dourada da especulação e das finanças.
III
A partir dali o neoliberalismo ganhou um impulso impressionante. O mercado financeiro passou por um processo de absoluto descolamento da realidade. Um papel poderia estar em alta, ou em baixa, e o mercado ou produto a que ele se referia poderia estar em situação exatamente oposta. E há os mercados futuros. E há os “hedge funds”.
IV
Acima de tudo, há trilhões de dólares girando no mundo, a cada segundo em uma ponta do planeta. Ingressam em massa, derrubam o dólar aqui, no momento seguinte vão para outro país à cata de oportunidades. É um capital que não gera riqueza, a não ser para os seus donos.
V
Era moda, no entanto, deixar esse capital solto, quebrando países e economias. Qualquer coisa que se fizesse para proteger o País do ingresso desenfreado de recursos, e de sua saída sem qualquer previsão, era tido como iniciativa intervencionista. Assim, era condenado em massa pelos ditos comentaristas econômicos.
VI
E quem são os tais comentaristas econômicos? Em sua maioria, gente que é convidada a fazer duas ou 3 palestras por mês, a 30.000 reais cada, pagas por alguém que tem interesse em propagandear alguma opinião específica. Tenha certeza que se você fizer um bom discurso em defesa da soberania nacional e do petróleo, não será chamado a palestrar mensalmente em troca dos 60.000 reais. Mas se você fizer um discurso sobre como é importante a absoluta liberdade para o capital, sobre como a privatização é importante, ainda que o bem seja vendido a preços muito inferiores, e mesmo que o comprador não seja sério, e mesmo que tudo isso ocorra com financiamento do BNDES, tenha certeza de que será um palestrante muito bem sucedido financeiramente.
VII
Então, não sejamos ingênuos. Ouve-se aquele sujeito falar na televisão, vê-se que tem um ar de superioridade, de quem está falando contra crianças com rompantes nacionalistas ou intervencionistas, vê-se que busca caracterizar como ridícula qualquer opinião que não seja a mera cantilena do mercado. O mercado cuida de tudo. Quebra a Varig, mas o mercado cuida de tudo. O mercado de fertilizantes está cartelizado nas mãos de 3 multinacionais, mas o mercado cuida de tudo. Se você apontar para os países asiáticos, para a Coréia, e disser que eles se construíram a partir de suas próprias forças, e não pedindo dinheiro emprestado à banca internacional, esses ditos comentaristas mudarão de assunto. Manterão a mesma cantilena.
VIII
Na verdade, mais do que uma cantilena, é um mantra. O mantra da nova religião - o mercado - e seu deus, o dinheiro. Apregoam esse mantra o dia inteiro, composto, essencialmente, por bordões como “o Estado não deve intervfir”, “o Estado é incompetente”, “o Estado é essencialmente corrupto”, “a ineficiência é característica estatal”, “o Estado é um dinossauro emperrado”, “o que é do Estado é dominado pelos políticos, e aí só há corrupção”. Então, melhor afastar o Estado. É vendida a fábrica estatal de fertilizantes e o preço dispara. São vendidas as companhias telefônicas, inclusive para bandidos investigados em outros países do mundo, que passam a ter, a seu serviço, o grampo privado. É vendido todo o subsolo nacional pelo equivalente a 3 meses de faturamento da companhia vale do Rio Doce. E tudo isso é feito sem que o novo dono coloque dinheiro: pegou dinheiro emprestado do BNDES para “comprar” empresas.
IX
Pois ouvimos esse mantra o tempo todo. E os comentaristas, e os deboches. Só que esse modelo quebrou. O povo norte-americano pagará, por baixo, 700 bilhões de dólares. E é dinheiro do povo, mesmo, dinheiro de impostos. Barack Obama já disse que é o dinheiro dos pobres que salvará bancos irresponsáveis. E é exatamente isso. Qual será o rumo do sistema financeiro a partir de agora?
X
De novo, volto ao tema. Se você tem uma horta, melhor do que ter um pedaço de papel. O papel pode não durar nada de um dia para o outro. A horta garante, pelo menos, as batatas do vencedor. O mundo mudou, não sabemos qual a extensão. As coisas ganharam, novamente, a sua dimensão. Esses “hedge funds” precisam ser profundamente regulados. Não é mais admissível que entrem de manhã em um País e saiam à tarde.
XI
Imagine que todos adoram confete, que quem tem qualquer bem troca por confete, que tem um valor extraordinário. Até que um dia alguém se dá conta de que o confete é uma coisa besta, sem valor. Melhor ter uma galinha, que põe ovos, do que ter confete. Estamos nessa situação: o mundo está cheio de “confetes”, papelórios que circulam de um lado para o outro. Países que nada têm como riqueza da produção, que não tem arroz, feijão, carne, leite, milho, petróleo, álcool se apresentam como países ricos. E aqueles que têm tudo isso - arroz, feijão, carne, leite, milho, petróleo, álcool - são convencidos de que são pobres e, portanto, devem vender o seu arroz, feijão, carne, leite, milho, petróleo, álcool, em troca de confete. Só que chegou um momento em que todos vêem que confete não vale nada, que na hora da crise o que vale a pena é ter uma galinha que põe ovos. Ninguém come papel, ninguém come bytes.
X
Essa crise veio em um momento extraordinário. Ainda não temos o dinheiro do pré-sal, que poderia ser usado para comprar confetes, tão somente. Temos toda a oportunidade de repensar o Brasil, sua produção, a distribuição de sua riqueza. Temos toda a oportunidade de propor um grande pacto nacional que valorize o trabalho e estimule a produção, a riqueza produtiva. Essa crise mundial pode ser nossa grande oportunidade. Pode ser o chacoalhão que faltava para pensarmos tanto o pré-sal quanto toda a poítica de desenvolvimento.
XI
Mas isso não pode ficar nas mãos dos políticos. Não que os políticos sejam excluídos. Mas é preciso que seja tomado às mãos pela cidadania, pelas associações empresariais, pelas entidades sindicais. Estamos em uma situação privilegiada. O Brasil pode recomeçar, pode se refazer, pode dar início a um novo pacto, a uma nova civilização. As coisas finalmente ganham a sua verdadeira dimensão. E o Brasil surge como um País rico naquilo que efetivamente tem valor.