Não tenho condições de avaliar se o PT, ou se Lula, ganhou ou perdeu o processo eleitoral que se encerrou ontem. Mas tenho a impressão de que esperavam mais.
II
Já disse em outra oportunidade: Lula é um homem de sorte. É um sobrevivente, um vitorioso. As chances de sobrevivência eram mínimas na infância. Sobreviveu graças ao esforço da mãe, que conseguiu criar os filhos em meio a uma miséria que poucos de nós conhecemos. Lula tem sorte, tem estrela. E falei de Napoleão: ao escolher seus generais, levava em conta a sorte de cada um.
III
Acho, portanto, que o PT esperava mais dessa eleição. Admiro a história do PT. Mas não sei se o partido se reconhece no governo Lula. E não sei se o partido, hoje, sequer reconhece a si mesmo.
IV
A reforma da previdência levada a efeito no primeiro governo Lula foi ruim. Foi péssima. Foi um tributo pago ao FMI em um momento em que o governo estava forte. Resolveu retirar direitos e assim fez. Quando surgiu a história do mensalão, me perguntei: se for verdade, para que pagar os neoliberais para fazer a reforma que os neoliberais querem? Na previdência complementar não foi muito diferente.
V
E, na sua sorte, Lula recebeu um segundo mandato. E houve coisas extremamente positivas no governo. Falo, principalmente, do Bolsa Família. São apenas 10 bilhões de reais por ano para tirar da miséria uma população inteira, enquanto pagamos 200 bilhões de reais ao ano de juros da dívida pública. Então, há, sim, coisas boas no governo Lula. Pelo menos a Petrobrás está aí, também o BB, a CEF, o BNB, o Basa. Em boa parte, portanto, a discurseira neoliberal não foi levada adiante.
VI
E coube a Lula assistir ao desmonte da imensa fantasia dos mercados internacionais. E coube a Lula promover uma maior intervenção do Estado, agora, por meio da medida provisória que autoriza BB e CEF a comprar instituições e carteiras de bancos e seguradoras. Aí está sua sorte.
VII
Mas o resultado eleitoral está aí. Creio que o PT pretendia crescer mais do que os resultados apontaram. Então, é hora de pensar nos motivos que levaram a isso. E há, claro, um pedaço do discurso do PT que até hoje permanece sem vingar. É o discurso que diz respeito à mudança de política econômica. Se é para fazer uma política conservadora, por que não eleger os conservadores?
VIII
O PT não saiu tão forte quanto queria. Muito provavelmente se perdeu no discurso, não conseguiu demonstrar a diferença entre ele e os outros partidos. Não se sabe, hoje, qual a opinião do PT sobre a crise, qual a opinião sobre previdência, sobre educação, sobre saúde, sobre ecologia. Não se sabe, também, qual a opinião do PT sobre cumprimento de decisões judiciais.
IX
Então, vejo no resultado do processo eleitoral uma luz amarela. Prefeito é prefeito, Presidente é presidente. Mas o resultado aí está, em relação ao PT, e não em relação a Lula. Qual a opinião do PT sobre a crise das bolsas, sobre o apoio necessário à empresa nacional? O partido conseguiu manter sua cara, sua identidade, ou não consegue ter um discurso, e uma prática, diferenciados dos demais partidos?
X
Até que ponto o PT consegue influenciar o governo Lula? Até que ponto o PT se fortalece ou se enfraquece com o governo Lula? Confesso que, hoje, não consigo distinguir entre um e outro. Não sei qual a opinião do PT, embora consiga ver os atos do governo Lula.
XI
E o PDT? Também não consigo reconhecer no PDT a herança de Leonel Brizola. Também não vejo o PDT a empunhar as bandeiras nacionalistas que, agora, voltam com toda a força a partir do desabamento dos mercados mundiais. E o PC do B? Está lá na ANP - Agência Nacoinal do Petróleo, programando mais um leilão de bacias petrolíferas para dezembro.
XII
Então, para que lado vai o País? Quem se fortalece? As propostas “de mercado”, ou seja, as que desabaram? A de explorar o trabalhador? A de explorar o consumidor? A de, cada vez mais, tentar atrair capital internacional que foge na primeira crise? Ou há alguém pensando em um projeto nacional?
XIII
Essas eleições dão o que pensar. Cadê a coerência dos partidos? Cadê os projetos? Cadê a escola de turno integral, cadê o transporte, o metrô? Cadê a melhora dos salários? Não se fala nisso. Claro, são eleições municipais. Mas sempre se vinculava a questão municipal, a estadual, ao projeto para o País. Mas cadê o projeto para o País?
XIV
Mas a crise aí está, e é preciso atuar. E a sorte de Lula ainda está aí, permite que atue durante mais dois anos para mudar estruturalmente o País. A crise é a oportunidade do PT se refazer, e também do governo Lula. Há dois anos para isso, há tempo. É possível procurar o empresariado nacional, incentivar a pequena e a média empresa, avançar na proteção ao trabalhador. Mas é preciso um pouco de ousadia. Só a sorte não ajuda.
XV
A grande crise de 29 nos EUA trouxe, para nós, a revolução de 30. Ali teve início a industrialização do País, e também tiveram ínicio as leis de proteção ao trabalhador. O Brasil tinha projeto. A crise de 2008 trará o quê? O resultado das urnas trará o quê? Hora de pensar, de refletir. Hora de ter coragem.