ago 24 2009

55 ANOS. É PRECISO HONRAR

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Cansaço, cansaço. A reunião havia varado a madrugada. Em poucas semanas uma história toda de vida era encerrada. Mas não do jeito que queriam. O último lance da partida seria do velho.

II

O que havia antes dele? O mato, o cerrado, o sertão. E havia o que chamavam de “negrada”. E havia um prazer indescritível em dizerem que isso aqui, o Brasil, não daria certo. Lembrou do seu discurso de estudante, saudando o Presidente da República que visitava o Rio Grande do Sul: “estes países que, exportando suas matérias primas, se vêem obrigados a importá-las industrializadas, logo após”. Não era bem isso, era algo parecido. Mas lembrou desse trecho. Foi um desafio de vida que se lançou, ainda menino.

III

Antes, o nada. Alugava-se gente em troca de farinha. Sequer carne seca era dada. O início havia sido duro: uma longa conspiração, um tabuleiro político a ser jogado. O velho tinha sido Ministro da Fazenda de Washington Luís. Voltou ao seu Estado e o governou. Por um desses lances da sorte, São Paulo resolveu quebrar a regra, e resolveu lançar um paulista para suceder outro paulista. Ali se abria a possibilidade de Aliança com os mineiros. Ali Oswaldo Aranha tecia, costurava. Na campanha presidencial, o programa da Aliança Democrática foi divulgado. A eleição foi fraudulena, a derrota era certa. E aí houve o assassinato de João Pessoa, e houve a comoção que levou à Revolução.

 IV

No início foi tudo difícil. Como assumir uma estrutura “carcomida’? Como criar uma Justiça Eleitoral, já que sequer isso havia? E os partidos, então? Regionais, pequenas aglomerações de coronéis. E ainda o golpe de mão: quando as tropas já estavam em Curitiba, a cúpula militar resolve assumir o governo. Um golpe contra a Revolução. Mas foram devidamente dobrados com as tropas avançando. Em 24.10 a Revolução é vitoriosa. E menos de dois anos depois o baronato do café se levanta em São Paulo, exigindo “uma nova Constituição”. Ora, a Revolução sequer estava instalada, e, mesmo assim, já havia até uma lei eleitoral para escolher os novos constitituintes! E foi necessária a guerra declarada por São Paulo. Em 33, a Constituinte. Em 34, a nova Constituição.  

 V

Em 35 ocorre a insana tentativa de golpe de Estado conhecida como “Intentona Comunista”. O mundo fervilhava. Na Alemanha, Hitler preparava seu país para o que chamava de vingança das perdas da 1ª Guerra Mundial. No Brasil, o Partido Nazista se organizava. Chegou a ter 1 milhão de membros. O choque era cotidiano no País. E aí houve um golpe dentro da Revolução. Teria acontecido com o Velho ou sem ele. E aconteceu com o Velho. Curiosamente, a AIB – A Ação Integralista Brasileira, os fascistas e nazistas daqui, foi fechada também em 37: o Estado Novo proibiu todas as agremiações políticas, para a surpresa dos integralistas. Em 1938 é a vez do levante integralista: buscam a tomada do Palácio. Os sentinelas são corrompidos ou cooptados, e o Velho é obrigado a se defender sozinho, com o seu colt 32. Misteriosamente o exército só aparecerá algumas horas depois para socorrer o velho. Levou mais de 3 horas para percorrer menos de 1km. E em 1939 Hitler invade a Polônia e a 2ª Guerra tem início.  

 VI

Em 1937, finalmente, a Revolução se consolidava. Era a Ditadura, sim, mas a Ditadura que vem após a Revolução. Ali foram consolidadas as leis. Ali, finalmente, a abolição da escravatura era concluída: em 1988 tão somente os negros foram expulsos das fazendas. Com o Velho, enfim, o povo todo passava a ter seus direitos reconhecidos. E foi antes disso, ainda, que o Velho havia obrigado os clubes de futebol a admitir negros. E também foi Velho que determinou subsídio oficial às Escolas de Samba, para que a cultura popular brasileira finalmente emergisse. Ali veio toda a industrialização brasileira, que começa, sempre, com a siderurgia: é preciso fazer aço do ferro. Tínhamos o ferro, exportávamos, mas não tínhamos a tecnologia do aço. Foi o Velho que trouxe, já no início da Guerra. Finda a Guerra, havia o movimento nas ruas: o Queremismo. Havia um apelo para que o velho disputasse as eleições. Foi deposto. Elegeu-se Senador por 2 Estados, e Deputado Federal por outros 8. À época era possível.

 VII

Deposto em 45, foi para sua fazenda, em São Borja. E lá permaneceu. Impôs-se cinco anos de exílio interno, de reflexão. A casa, de uma pobreza franciscana. Lá pelas tantas, recebeu uma geladeira de presente. Era o luxo que o Velho tinha: água gelada em uma pequena casa no meio do pampa. E foi chamado para disputar eleições.

 VIII

Já na Campanha de 50 a infâmia era terrível. Lacerda discursava: “Este homem não pode ser candidato; se candidato, não pode ser eleito; se eleito, não pode tomar posse; se tomar posse, temos que recorrer às armas para impedi-lo de governar”. O Velho percorreu o Brasil. E venceu. E os golpistas exigiam uma “maioria absoluta” não constava da Constituição Federal. O mesmo golpe foi tentado, depois, contra Juscelino. E iniciou o governo democrático do Velho.

 IX

Ali tivemos a criação da Petrobrás, tivemos o BNDE. O Brasil se estruturava, crescia a níveis chineses de hoje: crescia 12% ao ano. De um lado, a indústria incentivada pelos bancos estatais; de outro, a proteção dos direitos dos trabalhadores. Aquele salário mínimo, trazido a valores de hoje, chegava a quase 2.000 reais. Era essa a política do Velho: apoio ao capital nacional, apoio ao desenvolvimento, e ao mesmo tempo incluir a massa trabalhadora no processo de desenvolvimento. Aí veio, também, o projeto de implantação da Eletrobrás.

 X

A UDN, no entanto, não dava trégua. O Velho, no primeiro período, saiu do governo muito mais pobre do que entrou. Eleito em 50, dedicava-se a concluir um processo em que democracia significa justiça social, significa apoio ao capital nacional e ao trabalhador nacional. E começa a campanha insana da Direita. A cada dia um escândalo fabricado pelos Diários Associados, pelo Globo, pela Tribuna da Imprensa. Roberto Marinho chega a ceder um programa de Rádio – que começava à noite e não tinha hora para acabar – a Carlos Lacerda. E Lacerda pregava abertamente o golpe.

 XI

A imprensa, que devia pesadamente ao Banco do Brasil, acusa Samuel Weimer, do jornal Última Hora, de dever ao Banco do Brasil. Samuel, ingenuamente, resolve propor a instalação de uma CPI para investigá-lo. E a CPI ignorou as dívidas dos demais jornais, e concentrou-se em Samuel Weimer e suas dívidas pagas em dia. Qualque coisa era palco, qualquer coisa era escândalo. Até que ocorre o atentado da rua Toneleros. O Major Vaz leva Lacerda e seu filho até em casa. Todos descem. Do outro lado da rua se aproxima um homem. Major Vaz, à frente, atira; Lacerda, atrás, atira. Lacerda alega que levou um tiro de calibre 45 no pé. Um tiro desses arranca metade do pé fora. Mas o de Lacerda, não. E Lacerda se recusa a entregar sua arma para perícia. Nunca se ficou sabendo de que arma saiu a bala que matou o Major Vaz. Como era um militar da Aeronáutica, é instalado um Inquérito Policial Militar. Gregório Fortunato, o chefe da guarda pessoal de Getúlio, é preso. É levado de avião sobre a Bahia da Guanabara. Amarrado, as portas do avião são abertas e é ameaçado de ser jogado lá de cima. Gregório Fortunato confessa tudo, assume a autoria do atentado.

 XII

A crise estava no fim na madrugada de 24 de agosto de 1954. O Ministério reunido. Tancredo insistia para que o Velho resistisse. O Ministro da Guerra afirmava ser impossível resistir. Alzira, a filha do Velho, afirmava que não, que os golpistas não tinham comando de tropas. E listava, um a um, os quartéis sob domínio da legalidade. O Velho ouve o Ministério, e afirma que se licenciaria. Dias antes havia dito a Samuel Weimer: “só morto sairei do Catete”. Na reunião ministerial da madrugada, afirmou que se licenciaria. E o Ministro da Guerra afirmou que não teria condições de garantir a volta, mesmo sendo o velho inocentado. Inocentado de quê, ele não sabia.

 XIII

A política nacionalista havia irritado profundamente os Estados Unidos. O Velho retirou o Brasil da condição de colônia. Fomos fiéis aliados dos EUA na segunda guerra, mas o Brasil se mantinha altivo. Aqui dentro, a CIA estendia seus braços, cooptava lideranças empresariais, cooptava a imprensa. O Brasil causava o pânico, à época, que a China causa hoje, ao mundo: uma potência que surge.

 XIV

Terminada a Reunião, Lutero Vargas vem comunicar ao pai que havia sido chamado a depor na “República do Galeão”. Era o fim. Era a humilhação envolvendo a família. Era o golpe final da direita comprada, entreguista, dos que não tinham votos mas tinham o apoio estrangeiro. O velho se recostou na cama. Preferiu tirar um cochilo para que seu último ato fosse lúcido, para que descansasse um pouco. Nunca um homem transformou um País como ele havia feito. Nunca até ele, nunca nos tempos modernos. Antes dele, talvez César, talvez Napoleão. Aqui, em um País quase sem armas, valia a sua estratégia, o seu senso político, o seu sorriso.

 XV

Às 8:24h de 24 de agosto de 1954, há 55 anos, ouviu-se um estampido. Alzira, ao invadir o quarto, ainda viu o pai vivo, com os olhos abertos, tentando contorcer a boca aberta para algo próximo a um sorriso dirigido à filha. Ali, com um tiro no coração, morria Getúlio Dornelles Vargas. Nascido em 19 de abril de 1882, aos 72 anos o velho atirava seu cadáver sobre os seus detratores, sobre seus inimigos, e abortava ali, com um tiro no coração, um golpe militar que somente conseguiu ser desferido 10 anos após, em 1964.

4 respostas até o momento

4 Respostas em “55 ANOS. É PRECISO HONRAR”

  1. John Raschle Juniorem 24 ago 2009 �s 13:22

    Pena que não tem mais brasileiros como Getúlio Vargas que honrava as palavras, a serviço do Brasil.

  2. HERÊNIOem 24 ago 2009 �s 15:18

    DEPOIMENTO – Na manhã do dia 24 de agosto de 1954, ao retornarmos a Porto Alegre num DC-3, em vôo em vôo “pinga-pinga”, havíamos deixado o Rio de Janeiro em completa ebulição política. É que parte da população, insuflada pela grande mídia, liderada pelo boquirroto Carlos Lacerda, acolitado pelos conservadores de alta estirpe do eixo Rio de Janeiro-São Paulo e Minas, através de sua Tribuna de Imprensa e outros, insistia que as Forças Armadas, com o apoio de parte do Congresso Nacional no sentido de que Getúlio Vargas deveria ser imediatamente deposto. Para detonar a crise, houve um estopim: a Aeronáutica Militar, com apoio de insurgentes das outras duas Forças, havia instalado a chamada “república do Galeão” onde, em inquérito presidido pelo coronel da Aeronáutica João Adil de Oliveira, o Presidente da República deveria explicar o “mar de lama que corria nos porões do Catete”, palácio em que trabalhava Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio e outros. Enfim, os que foram arrolados como envolvidos no controvertido episódio, em que perdeu a vida o major da aeronáutica Florentino Vaz. Setores militares insurgentes das forças armadas, ligados aos elementos conservadores, instavam que alí deveriam ser julgados e punidos os integrantes do malfadado “peleguismo trabalhista” de Vargas, a fim de resgatar a honra nacional conspurcada. Em talcontexto, ofereciam a Getúlio duas “saídas”: licenciar-se para a devidas averiguações em curso ou renunciar de vez ao Governo. Mutatis mutandi, era algo parecido com as “propostas” ainda usadas hoje. À época, era a ação purista dos vestais da democracia udenista, que apregoava o lema de Eduardo Gomes, segundo o qual “o preço da liberdade a eterna vigilância”… Atuando com apoio do controvertido purismo de alguns, insuflaram boa parcela do povo a rebelar-se e juntar-se às forças armadas insurgentes. O presidente Getúlio Vargas, por sua vez, declarara que resistiria: só morto deixaria o Palácio do Catete. Foi o que fez. Não querendo se submeter à humilhação, decidiu partir para a eternidade. A população sentindo-se lograda rebelou-se em “empastelamento” de jornais e quebra-quebra sem par.
    Horas bem antes da manhã do dia 24, havíamos decolado rumo ao sul, deixando a cidade do Rio de Janeiro em ambiente extrema apreensão. Naquele sobe e desce litorâneo, chegamos a Porto Alegre por volta das 17 horas. Do trágico desfecho, nada sabíamos. Já havíamos abandonado o avião quando, ainda no pátio do velho aeroporto São João, fomos abordados pelo funcionário do setor de operações da Varig Damião Kluwe, que nos avisava da imperiosa necessidade de retornarmos imediatamente ao Rio de Janeiro e de lá regressarmos de imediato a Porto Alegre, vazios de carga. É que o Presidente Getúlio Vargas havia se suicidado e populares, revoltados, estavam destruindo tudo do Rio de Janeiro. Diante de tais ocorrência, em urgente missão, deveríamos transportar o então prefeito de Porto Alegre Leonel Brizola, que se encarregara de dar cobertura a familiares e componentes do Governo Vargas, na antiga Capital Federal. Em se tratando de viagem em avião cargueiro, o comissário foi liberado. Embora premidos pelo cansaço, diante da ponderação terminamos aceitando o cansativo encargo. Deveríamos tripular o velho cargueiro DC- 3 – PP-VBF – (conhecido de muitos como peça de museu), tendo o Joaquim Wild como comandante, o Ignácio co-piloto e eu, radiotelegrafista do vôo. Na condição de radio operador de bordo a mim cabia executava as comunicações telegráficas, via código Morse, pois não havia comunicação por fonia, a média e longa distância. As providências de preparo e abastecimento da velha aeronave cargueira só nos permitiu decolarmos quando já ultrapassava as vinte horas, tendo a bordo um único passageiro. Após o nível de cruzeiro, o prefeito Leonel Brizola acercou-se do meu local de trabalho e, dividindo comigo a mesma cadeira, durante alta noite ia pedindo notícias sobre o paradeiro de várias pessoas ligadas ao Governo Vargas: João Goulart, Lourival Fontes, Eugênio Cailart e muitos outros. As comunicações técnicas da aeronave ficaram entremeadas, para atender pedidos de toda ordem. Ele ia indicando as fontes que deveriam ser acionadas e, por fim, foi avisada a chegada de Brizola ao Rio. Foram mais ou menos 05h30 em vôo direto. Quando pousamos no velho Santos Dumont já era madrugada. Nascera o dia 25/08. Lembro-me bem: enquanto abasteciam a aeronave, fomos tomar um cafezinho de balcão, pois nada funcionava àquela hora. Brizola agradeceu aos colegas e, ao dirigir-se a mim, que lhe servira como “interlocutor telegráfico” durante todo o vôo, abraçou-me emocionado e prenhe em agradecimentos: disse-me do valor que representara tal ajuda. Embora houvesse grande tensão na cidade, a população do Rio de Janeiro aparentava estar mais calma. Uns e outros comentavam o trágico ocorrido. Emocionados, lamentavam a perda do grande líder. Aos primeiros comentários, alguns deixavam escapar que estavam descobrindo que foram usados como massa de manobra a interesses escusos. Realmente. Além do trabalhador emancipado, há que lembrarmos dos milhões de homens e mulheres que passaram a ser vistos e identificados como gente, na Era Vargas. Infelizmente, com outras roupagens, aí ainda estão as mesmas forças anti-sociais a verberar contra o povo humilde. Parece tratar-se de anomalias em seus DNA´s, que transmitem de pai pra filho.
    Um dia após o triste evento que registro, eu completaria 27 anos de idade. Hoje, ao contar os meus 84 “janeiros”, narro esse ligeiro episódio como testemunha anônima e ocular desse pedaço da história. E o faço como preito de reconhecimento e homenagem ao grande patriota que foi Getulio Dornelles Vargas.

  3. Henriqueem 24 ago 2009 �s 22:14

    Parabéns, pela homenagem a um homem que sempre governou, visando o melhor
    para o País e o povo
    Um grande abraço
    Henrique

  4. Marcioem 25 ago 2009 �s 09:14

    Hi Dr. Maia,

    parabéns por trazer aos mais jovens a história recente deste país. No futuro, quando não mais “o ódio que destorce as feições, mesmo na luta pela Justiça e Liberdade”, existir, aqueles que vierem depois de nós poderão saber, e reconhecer, os seus grandes. Todos os nomes de seu texto tem histórias. Conhece-las. longe das pauxões, é nosso dever.
    Obrigado.

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