Archive for agosto, 2009

ago 24 2009

O BB E AS CRÍTICAS ANTERIORES

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Acabei não comentando o assunto, e o Felix me lembrou do tema. É sobre o Banco do Brasil.

 II

Quando da troca de presidente do Banco do Brasil, houve o comentário de que a principal missão era baixar os “spreads” cobrados pelo banco. Ou seja, tentar empurrar os “spreads” para baixo. O Banco Central baixou as taxas de juros – não tanto quanto é necessário, mas baixou – e isso não se refletiu no consumidor. Os bancos acabaram se apropriando dessa diferença. Nesse meio tempo ocorreu a troca de presidente do Banco do Brasil.

 III

É só para recompor a história. Há uns 10 ou 15 dias o BB anunciou o seu balanço. E mesmo com a fusão do Itaú e Unibanco, voltou a ser o maior Banco do Brasil. E voltou a acelerar o processo de liberação de dinheiro, de crédito, para empresas que estão com falta de liquidez. Ainda não é o suficiente, mas voltou.

 IV

Mas o que houve na imprensa, na época da troca de presidente do BB? Acusações de “gestão política”, de “abandono da boa técnica bancária”. E foi anunciado que o BB ficaria mal em virtude dessa nova política que estava sendo anunciada. E vários dos “especialistas” de plantão comentaram sobre a irresponsabilidade do governo em determinar ao BB que rebaixasse os “spreads”.

 V
Pois aí está o Banco do Brasil, com um lucro extraordinário e com uma política, que ainda precisa ser aperfeiçoada, de rebaixamento dos “spreads”.

 VI

Por que a cantilena toda contra a mudança da política do BB no que se refere a crédito e “spreads”? Ora, porque um concorrente do porte do BB rebaixando as suas taxas obriga o mercado a fazer o mesmo. Basta olhar o lucro dos bancos para ver a estupidez que é, o esfolamento do consumidor, e tudo isso contra os interesses do País: é preciso apostar na saída da crise, na retomada do desenvolvimento. Como são os bancos os grandes anunciantes, e também grandes financiadores de campanha, e grandes “contratantes de palestrantes” para seus eventos, fica sempre fácil conseguir opiniões absolutamente em seu favor. Tudo com um verniz supostamente técnico.

 VII

Observe, por exemplo, a figura do “economista-chefe” dos bancos. A todo momento estão na televisão, pregando sua velha cantilena de que é preciso manter altas as taxas de juros. Ou fazer o tal “ajuste fiscal”. E o que é o ajuste fiscal? É diminuir aposentadorias, amigo; é aumentar a idade mínima para se aposentar; é manter o Fator Previdenciário.  É reduzir gastos da União e privatizar tudo, inclusive a previdência – que passaria a ser vendida somente em bancos. Por que não são chamados os “economistas-chefes” da indústria, do setor exportador? Primeiro, porque provavelmente não se permitem o luxo de ter esse tipo de cargo pesando na folha: um palpiteiro permanente para reforçar a política do Banco Central.  Segundo, porque são os bancos que dão a palavra final no que diz respeito à opinião da imprensa.

 VIII

Na hora da divulgação do desempenho do BB, ficam quietinhos. Já fizeram a sua bateria de críticas, não serão cobrados por isso. Mas fica no ar aquele discurso de “ingerência política”, como se a ingerência dos bancos sobre o Banco Central fosse algo técnico.

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ago 24 2009

BLOG

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O blog foi refeito neste fim de semana. É um novo blog, na verdade. Os textos e os comentários do blog anterior estão sendo importados e, em pouco tempo, estarão novamente acessíveis.

Até hoje não sei os motivos. Chegou a sair do ar quando houve aquele problema na rede mundial, inclusive no Twitter. E passou a não ser reconhecer caracteres. A única pendência é a importação daqueles textos e comentários antigos, o que já está acontecendo.

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ago 24 2009

55 ANOS. É PRECISO HONRAR

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Cansaço, cansaço. A reunião havia varado a madrugada. Em poucas semanas uma história toda de vida era encerrada. Mas não do jeito que queriam. O último lance da partida seria do velho.

II

O que havia antes dele? O mato, o cerrado, o sertão. E havia o que chamavam de “negrada”. E havia um prazer indescritível em dizerem que isso aqui, o Brasil, não daria certo. Lembrou do seu discurso de estudante, saudando o Presidente da República que visitava o Rio Grande do Sul: “estes países que, exportando suas matérias primas, se vêem obrigados a importá-las industrializadas, logo após”. Não era bem isso, era algo parecido. Mas lembrou desse trecho. Foi um desafio de vida que se lançou, ainda menino.

III

Antes, o nada. Alugava-se gente em troca de farinha. Sequer carne seca era dada. O início havia sido duro: uma longa conspiração, um tabuleiro político a ser jogado. O velho tinha sido Ministro da Fazenda de Washington Luís. Voltou ao seu Estado e o governou. Por um desses lances da sorte, São Paulo resolveu quebrar a regra, e resolveu lançar um paulista para suceder outro paulista. Ali se abria a possibilidade de Aliança com os mineiros. Ali Oswaldo Aranha tecia, costurava. Na campanha presidencial, o programa da Aliança Democrática foi divulgado. A eleição foi fraudulena, a derrota era certa. E aí houve o assassinato de João Pessoa, e houve a comoção que levou à Revolução.

 IV

No início foi tudo difícil. Como assumir uma estrutura “carcomida’? Como criar uma Justiça Eleitoral, já que sequer isso havia? E os partidos, então? Regionais, pequenas aglomerações de coronéis. E ainda o golpe de mão: quando as tropas já estavam em Curitiba, a cúpula militar resolve assumir o governo. Um golpe contra a Revolução. Mas foram devidamente dobrados com as tropas avançando. Em 24.10 a Revolução é vitoriosa. E menos de dois anos depois o baronato do café se levanta em São Paulo, exigindo “uma nova Constituição”. Ora, a Revolução sequer estava instalada, e, mesmo assim, já havia até uma lei eleitoral para escolher os novos constitituintes! E foi necessária a guerra declarada por São Paulo. Em 33, a Constituinte. Em 34, a nova Constituição.  

 V

Em 35 ocorre a insana tentativa de golpe de Estado conhecida como “Intentona Comunista”. O mundo fervilhava. Na Alemanha, Hitler preparava seu país para o que chamava de vingança das perdas da 1ª Guerra Mundial. No Brasil, o Partido Nazista se organizava. Chegou a ter 1 milhão de membros. O choque era cotidiano no País. E aí houve um golpe dentro da Revolução. Teria acontecido com o Velho ou sem ele. E aconteceu com o Velho. Curiosamente, a AIB – A Ação Integralista Brasileira, os fascistas e nazistas daqui, foi fechada também em 37: o Estado Novo proibiu todas as agremiações políticas, para a surpresa dos integralistas. Em 1938 é a vez do levante integralista: buscam a tomada do Palácio. Os sentinelas são corrompidos ou cooptados, e o Velho é obrigado a se defender sozinho, com o seu colt 32. Misteriosamente o exército só aparecerá algumas horas depois para socorrer o velho. Levou mais de 3 horas para percorrer menos de 1km. E em 1939 Hitler invade a Polônia e a 2ª Guerra tem início.  

 VI

Em 1937, finalmente, a Revolução se consolidava. Era a Ditadura, sim, mas a Ditadura que vem após a Revolução. Ali foram consolidadas as leis. Ali, finalmente, a abolição da escravatura era concluída: em 1988 tão somente os negros foram expulsos das fazendas. Com o Velho, enfim, o povo todo passava a ter seus direitos reconhecidos. E foi antes disso, ainda, que o Velho havia obrigado os clubes de futebol a admitir negros. E também foi Velho que determinou subsídio oficial às Escolas de Samba, para que a cultura popular brasileira finalmente emergisse. Ali veio toda a industrialização brasileira, que começa, sempre, com a siderurgia: é preciso fazer aço do ferro. Tínhamos o ferro, exportávamos, mas não tínhamos a tecnologia do aço. Foi o Velho que trouxe, já no início da Guerra. Finda a Guerra, havia o movimento nas ruas: o Queremismo. Havia um apelo para que o velho disputasse as eleições. Foi deposto. Elegeu-se Senador por 2 Estados, e Deputado Federal por outros 8. À época era possível.

 VII

Deposto em 45, foi para sua fazenda, em São Borja. E lá permaneceu. Impôs-se cinco anos de exílio interno, de reflexão. A casa, de uma pobreza franciscana. Lá pelas tantas, recebeu uma geladeira de presente. Era o luxo que o Velho tinha: água gelada em uma pequena casa no meio do pampa. E foi chamado para disputar eleições.

 VIII

Já na Campanha de 50 a infâmia era terrível. Lacerda discursava: “Este homem não pode ser candidato; se candidato, não pode ser eleito; se eleito, não pode tomar posse; se tomar posse, temos que recorrer às armas para impedi-lo de governar”. O Velho percorreu o Brasil. E venceu. E os golpistas exigiam uma “maioria absoluta” não constava da Constituição Federal. O mesmo golpe foi tentado, depois, contra Juscelino. E iniciou o governo democrático do Velho.

 IX

Ali tivemos a criação da Petrobrás, tivemos o BNDE. O Brasil se estruturava, crescia a níveis chineses de hoje: crescia 12% ao ano. De um lado, a indústria incentivada pelos bancos estatais; de outro, a proteção dos direitos dos trabalhadores. Aquele salário mínimo, trazido a valores de hoje, chegava a quase 2.000 reais. Era essa a política do Velho: apoio ao capital nacional, apoio ao desenvolvimento, e ao mesmo tempo incluir a massa trabalhadora no processo de desenvolvimento. Aí veio, também, o projeto de implantação da Eletrobrás.

 X

A UDN, no entanto, não dava trégua. O Velho, no primeiro período, saiu do governo muito mais pobre do que entrou. Eleito em 50, dedicava-se a concluir um processo em que democracia significa justiça social, significa apoio ao capital nacional e ao trabalhador nacional. E começa a campanha insana da Direita. A cada dia um escândalo fabricado pelos Diários Associados, pelo Globo, pela Tribuna da Imprensa. Roberto Marinho chega a ceder um programa de Rádio – que começava à noite e não tinha hora para acabar – a Carlos Lacerda. E Lacerda pregava abertamente o golpe.

 XI

A imprensa, que devia pesadamente ao Banco do Brasil, acusa Samuel Weimer, do jornal Última Hora, de dever ao Banco do Brasil. Samuel, ingenuamente, resolve propor a instalação de uma CPI para investigá-lo. E a CPI ignorou as dívidas dos demais jornais, e concentrou-se em Samuel Weimer e suas dívidas pagas em dia. Qualque coisa era palco, qualquer coisa era escândalo. Até que ocorre o atentado da rua Toneleros. O Major Vaz leva Lacerda e seu filho até em casa. Todos descem. Do outro lado da rua se aproxima um homem. Major Vaz, à frente, atira; Lacerda, atrás, atira. Lacerda alega que levou um tiro de calibre 45 no pé. Um tiro desses arranca metade do pé fora. Mas o de Lacerda, não. E Lacerda se recusa a entregar sua arma para perícia. Nunca se ficou sabendo de que arma saiu a bala que matou o Major Vaz. Como era um militar da Aeronáutica, é instalado um Inquérito Policial Militar. Gregório Fortunato, o chefe da guarda pessoal de Getúlio, é preso. É levado de avião sobre a Bahia da Guanabara. Amarrado, as portas do avião são abertas e é ameaçado de ser jogado lá de cima. Gregório Fortunato confessa tudo, assume a autoria do atentado.

 XII

A crise estava no fim na madrugada de 24 de agosto de 1954. O Ministério reunido. Tancredo insistia para que o Velho resistisse. O Ministro da Guerra afirmava ser impossível resistir. Alzira, a filha do Velho, afirmava que não, que os golpistas não tinham comando de tropas. E listava, um a um, os quartéis sob domínio da legalidade. O Velho ouve o Ministério, e afirma que se licenciaria. Dias antes havia dito a Samuel Weimer: “só morto sairei do Catete”. Na reunião ministerial da madrugada, afirmou que se licenciaria. E o Ministro da Guerra afirmou que não teria condições de garantir a volta, mesmo sendo o velho inocentado. Inocentado de quê, ele não sabia.

 XIII

A política nacionalista havia irritado profundamente os Estados Unidos. O Velho retirou o Brasil da condição de colônia. Fomos fiéis aliados dos EUA na segunda guerra, mas o Brasil se mantinha altivo. Aqui dentro, a CIA estendia seus braços, cooptava lideranças empresariais, cooptava a imprensa. O Brasil causava o pânico, à época, que a China causa hoje, ao mundo: uma potência que surge.

 XIV

Terminada a Reunião, Lutero Vargas vem comunicar ao pai que havia sido chamado a depor na “República do Galeão”. Era o fim. Era a humilhação envolvendo a família. Era o golpe final da direita comprada, entreguista, dos que não tinham votos mas tinham o apoio estrangeiro. O velho se recostou na cama. Preferiu tirar um cochilo para que seu último ato fosse lúcido, para que descansasse um pouco. Nunca um homem transformou um País como ele havia feito. Nunca até ele, nunca nos tempos modernos. Antes dele, talvez César, talvez Napoleão. Aqui, em um País quase sem armas, valia a sua estratégia, o seu senso político, o seu sorriso.

 XV

Às 8:24h de 24 de agosto de 1954, há 55 anos, ouviu-se um estampido. Alzira, ao invadir o quarto, ainda viu o pai vivo, com os olhos abertos, tentando contorcer a boca aberta para algo próximo a um sorriso dirigido à filha. Ali, com um tiro no coração, morria Getúlio Dornelles Vargas. Nascido em 19 de abril de 1882, aos 72 anos o velho atirava seu cadáver sobre os seus detratores, sobre seus inimigos, e abortava ali, com um tiro no coração, um golpe militar que somente conseguiu ser desferido 10 anos após, em 1964.

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ago 24 2009

PORQUE É PRECISO LEMBRAR

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Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto.

 

Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

 

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte.
Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Getúlio Dorneles Vargas

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ago 23 2009

E CHOVEU

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Brasília tem um clima impressionante. A estação da seca costuma iniciar em abril e seguir até outubro. Às vezes em novembro é que a chuva volta à  normalidade. Costuma ser um período terrí­vel. Neste ano, duas pessoas que moram em Brasí­lia há alguns anos me relataram sangramento no nariz.

II
Pois na úlltima sexta-feira choveu. E choveu no sábado. E, há pouco, aqui na região de casa choveu torrencialmente. Nada indica que a seca acabou. Mas foi uma novidade impressionante. Que traga bons augúrios.

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ago 23 2009

CONVERSA FIADA DE DOMINGO

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Há dois momentos na história que me perturbam particularmente. O primeiro, a captura de escravos na África para serem vendidos aos traficantes de gente. É que a captura era feita por negros que mantinham negócios com os traficantes de escravos. Entregavam sua própria gente em troca de dinheiro. O segundo momento são os campos de concentração nazistas. Há uma curiosidade que pouco se fala. É que, em boa parte dos campos, a vigilância interna era feita por judeus cooptados. Eram uns poucos judeus que, achando que se salvariam, prestavam serviços aos nazistas, inclusive dedurando eventual conspiração de fuga. Agradavam aos homicidas na esperança de serem poupados.

 

II

Mais um trabalhador sem terra assassinado no Rio Grande do Sul. Que a estrutura fundiária brasileira é um absurdo, isso é pacífico. Até os militares tinham o seu Estatuto da Terra. Boa parte das grandes fortunas agrícolas se deram a partir da simples grilagem, inclusive, ou principalmente, de terras públicas. Terras públicas, a propósito, sequer podem ser objeto de usucapião. No Pará, o Ministério Público denuncia que terras do banqueiro Daniel Dantas seriam griladas, e que por ali se daria a lavagem de dinheiro. O ódio dos beneficiários da grilagem – do roubo, pois – é esperado. O que surpreende é a reação de outros, que não são beneficiários de gatunagem, mas acham absurdo o protesto organizado em defesa de direitos. Ou seja, não defendo meu direito por falta de coragem, ou por falta de dignidade, e também não admito que outros defendam o seu.

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ago 23 2009

BLOG

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Conforme deu para ver, o blog está em manutenção neste fim de semana. Estamos tentando resolver o problema do reconhecimento dos caracteres.
2. Deixei que algumas discussões corressem mais ou menos soltas aqui no blog. Em parte, para que alguns pudessem liberar a ansiedade. Em outra situação, para evitar a mão pesada na liberação de comentários. O que tenho vetado, normalmente, são comentários que dizem respeito a calúnia, particularmente contra autoridades públicas. Nesse caso, continuarei vetando. Em outros, quando a falta de educação ultrapassa o limite, também veto. Nesse particular, na semana passada, fui tolerante em demasia.

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ago 23 2009

DOS JULGAMENTOS PRECIPITADOS

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Julgamento precipitado é  uma coisa perigosa, e não raro caí­mos nisso. É fácil tirar uma conclusão apressada das coisas. E isso acontece inclusive com o Juiz, quando tira uma conclusão apressada a respeito de algo. Ou seja, sempre é um risco o julgamento precipitado.

II
Tivemos alguns casos clássicos de como esse tipo de julgamento fica ainda mais perigoso quando é inflado pela imprensa. Houve o famoso caso da Escola Base, em São Paulo, quando os donos foram acusados de abuso das crianças. Foram absolutamente inocentados, mas a imprensa - e, em conseqüência - a opinião pública, já os havia condenado.

III
O dia 19.12.2008 é bastante presente para boa parte dos frequentadores deste blog. Originalmente prevista para o dia 18.12, a votação do Agravo Regimental na SL 127 findou começando só no dia 19.12, último dia de funcionamento dos tribunais antes do recesso do final de ano. Foi o dia em que o Ministro Gilmar Mendes afirmou que, dada a relevância social daquele tipo de tema em discussão, deveria a AGU constituir uma câmara específica para buscar a conciliação. Todos temos isso na memória.

IV
Pois bem: em conversa com senadores, a ex-secretária da receita federal afirmou que tinha se reunido reservadamente com a Ministra Dilma Rousseff naquele dia 1912. Isso circulou pelo Congresso, circulou pelos senadores da oposição. Mas há algumas questões aí­.

V
A primeira delas: no dia 19.12 a Ministra Dilma estava em uma reunião do Conselho de Administração da Petrobrás. E a ex-secretária da Receita estava em plena viagem para o Rio Grande do Norte, sua terra natal, de cujo governo foi secretária estadual de tributos, e estado pelo qual o Senador Agripino Maia, do PFL (DEM), foi eleito. O Senador Agripino é aquele que “acusou” Dilma Roussef de ter mentido aos seus torturadores quando tinha 19 anos de idade, foi colocada no pau-de-arara e sexualmente humilhada. Ao final do dia 19.12, a Ministra viajou para Porto Alegre para fazer a cirurgia plástica tão noticiada no iní­cio do ano.

VI
Havia vários problemas na versão dada pela ex-Secretária: se houvesse sido sugerido ou proposto a ela que arquivasse sumariamente um procedimento regular, isso seria crime da autoridade que sugeriu. E o funcionário público, a ex-Secretária da Receita, que tem conhecimento de crime, deveria denunciar imediatamente. Se não denunciasse, o que acobertou passaria a ser também criminoso. Daí­ surge a história de “pedir agilidade”. Pedir agilidade não é crime. Na verdade, deveria ser obrigação.

VII
Mas há mais incongruência aí­. A imprensa publica que o Ministro Guido Mantega, o superior imediato da ex-Secretária, pediu à Secretária informações sobre o mesmo tema. Foi informado sobre o andamento, e tão só. Mas essa informação surge agora, sem qualquer suspeita sobre o Ministro Mantega. Efetivamente, tão só cumpriu sua obrigação, pediu notícias sobre uma investigação em andamento, tão só.

VIII
Até a metade de janeiro de 2009, de outra parte, Sarney não era candidato ao Senado. Compareceu ao Palácio do Planalto em cinco oportunidades para dizer que não era candidato. E aí  PT e PSDB - sim, os dois juntos -  lançaram a candidatura do Senador Tião Viana. PFL e PMDB é que resolveram lançar Sarney, após 20 de janeiro, como candidato de última hora e que acabou vencedor da eleição para Presidente do Senado.

IX
A Ministra Dilma negou o tal encontro privado e afirmou que só esteve reunida com a ex-Secretária em reuniões com mais pessoas, envolvendo várias áreas. A ex-Secretária, que havia dito aos Senadores que a reunião teria ocorrido em 19.12, preferiu dizer que “não se lembrava da data”, embora tivesse ficado no cargo pouquíssimo tempo. Ou seja, nem a sua agenda registrava o tal encontro, nem a agenda da Ministra. Segundo a própria ex-Secretária, só teria se reunido privadamente uma única vez com a Ministra mais poderosa do governo, mas não se lembrava da data, nem por alto. Nem o mês, nem a semana, muito menos o dia. Ou seja, é um fato banal se reunir uma só vez na vida e a sós com a Ministra Chefe da Casa Civil, e ainda ouvir um pedido de “agilidade”.

X
E a tal “agilidade”? Segundo a própria ex-secretária, “não se sentiu pressionada”. E não lembra o turno do dia, nem a semana, nem o mês. Mas lembra o ano, claro, porque foi aquele no qual passou pouco tempo no cargo de secretária.

XI
A Revista Carta Capital desta semana soterra a versão da ex-secretária da Receita. Ouviu senadores de oposição que foram informados da data de 19.12 como da reunião privada, informação passada pela própria denunciante.

XII
Ou seja, a versão não se sustenta. Não houve reunião porque no dia divulgado sequer a ex-secretária estava em Brasília, e a ministra estava em longa reunião do Conselho de Administração da Petrobrás. Na reunião “reservada” que não houve, a Ministra teria pedido tão somente “agilidade”. E a ex-secretária afirmou que não se sentiu pressionada por isso.

XIII
O resto  - o fato de o marido da ex-secretária ter sido ministro interino no governo FHC; o fato de o marido da ex-secretária ser réu em ação de improbidade em curso no Supremo, tudo isso é irrelevante. E, de fato, não mereceu grande destaque da imprensa. É irrelevante, mesmo. Sobre o marido da ex-secretária deve haver presunção de inocência.

XIV
Primeiro, divulgada aos senadores da oposição uma data, 19.12. Depois, não lembra da data, nem da semana, nem do mês. E afirma que no encontro que não houve não se sentiu pressionada.

XV
Tirar conclusão precipitada é fácil. Embarcar em campanhas da imprensa é mais fácil ainda. Só que julgamento precipitado é uma coisa muito complicada, e aqui há muita gente que já foi ví­tima disso e continua sendo. Diga, por exemplo, que aposentado ganha demais e que isso desequilibra contas públicas. Acuse, por exemplo, um aposentado de não cuidar dos seus recursos, de ser imprevidente, de pretender que todo o povo pague por sua imprevidência. Parece ser verossí­mil, mas uma frase assim pode esconder uma pilha de autorizações ilícitas para que um fundo de aposentadoria fosse desfalcado, pode esconder o compadrio, pode esconder a lesão em massa, a apropriação indébita. E aí basta jogar a culpa nas vítimas, e criar uma discurso de “defesa do interesse público”. É  um julgamento precipitado e irresponsável, feito sob medida para manipular, com informações distorcidas e mentirosas. Mas é exatamente a situação da Ministra Dilma: está, sim, sendo ví­tima de uma campanha irresponsável, com declarações da denunciante milimetricamente pesadas para que ela própria, a denunciante, não seja acusada de crime. E aí não lembra a hora, o turno do dia, o dia, a semana ou o mês. O problema dos julgamentos precipitados é que, admitindo-os, poderemos ser vítimas desse mesmo tipo de manipulação.

_____________________________

ATUALIZAÇÃO  – Extraio da Revista Época, de hoje, domingo. A Época, para quem não lembra, é da Globo -

“O marido de Lina é sócio majoritário na agência Dois A Publicidade. A empresa atua em Natal, onde recentemente venceu licitação para prestar serviços à Secretaria de Comunicação da prefeitura administrada por Miacarla de Souza (PV), aliada de Agripino e responsável por uma das maiores derotas do PT nas eleições municipais. A Dois A divide um contrato anual de R$ 10 milhões, firmado no mês passado, com outras quatro agências. Firmino [marido da ex-secretaria] também é sócio da empresa Impressão  Gráfica e Editora, recém-contratada pela prefeitura para editar a publicação “Natal pra você”, dedicada ao turismo. Procurados, nem Lina nem Firmino responderam aos pedidos de entrevista feitos por ÉPOCA.”

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ago 21 2009

O MOTORISTA

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A rigor, o episódio envolvendo a ex-Secretária da Receita Federal acabou nesta semana, no Senado. Expressamente ela afirmou, em depoimento no Senado, que não se sentiu pressionada pela Ministra.

II
E, embora tenha afirmado que teve uma única reunião a sós com a Ministra, também não conseguiu se lembrar nem do dia, nem da hora da reunião.

III
A Ministra afirmou que nunca esteve sozinha com a ex-Secretária, apenas em reuniões com várias pessoas.

IV
A última “novidade” surge agora: é que o motorista da Receita afirmou que levou várias vezes ex-Secretária até o Palácio do Planalto. Ora, mas isso foi afirmado pela própria Ministra! Levar até o Palácio do Planalto é uma coisa; reunião no gabinete da Ministra, dentro do Palácio, a sós, é outra.

V
Nesse caso é evidente a falsa crise: não se sentiu pressionada, teria ocorrido tão somente pedido para “agilizar” – o que não é mais do que obrigação da autoridade pública. Mas não sai da manchete. É o velho cartel da imprensa.

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ago 20 2009

O TERCEIRO MANDATO

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Os jornalões registram, curiosamente, o esforço democrático do presidente Uribe, da Colômbia, prestes a obter autorização do congresso para um terceiro mandato.

II
Parte significativa do governo Uribe está sendo processada por ligações com o narcotráfico. A Suprema Corte Colombiana está investigando inclusive um primo daquele Presidente.

III
No caso de Uribe, no entanto, o terceiro mandato não é um atentado à  democracia. Curiosa essa imprensa.

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