ago 24 2009
PORQUE É PRECISO LEMBRAR
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto.
Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte.
Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.
Getúlio Dorneles Vargas
bom dia doutor,
Díficil esse momento histórico, e lógico que temos que nos ater aos momentos épicos da história.
Sempre comento, em reuniões com os amigos, e quando falamos de política, que há duas cartas de Vargas.
O senhor publica a versão datilografada, que é muito diferente da manuscrita.
Getúlio era um simplório, ele jamais escreveria:
-”Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”
Essa parte para mim denota a falsidade do texto datilografado.
Porque esse é o último passo de um homem, a frase foi uma tentativa de imortalizar um gesto, doentio.
O suicídio, é um último desafio.
Esse comentário meu, não é para desmerecer a sua homenagem, apenas debater o fato.
abaixo o texto manuscrito que encontra-se na Fundação Getúlio Vargas.
TEXTO MANUSCRITO
CPDOC/FGV
“Deixo à sanha dos meus inimigos, o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia. A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa.
Acrescente-se a fraqueza de amigos que não defenderam nas posições que ocupavam à felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês, à insensibilidade moral de sicários que entreguei à Justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país contra a minha pessoa.
Se a simples renúncia ao posto a que fui levado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranqüilo no chão da pátria, de bom grado renunciaria.
Mas tal renúncia daria apenas ensejo para, com mais fúria, perseguirem-me e humilharem-me.
Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas.
Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não dos crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes.
Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos.
Que o sangue dum inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus.
Agradeço aos que de perto ou de longe me trouxeram o conforto de sua amizade.
A resposta do povo virá mais tarde…”
Resposta – Houve duas versões da Carta Testamento. A primeira, a que você postou; a segunda, posterior, que teria sido datilografada pelo mordomo de Getúlio a seu pedido, e cuja cópia foi entregue a Jango pelo próprio Getúlio. Quanto a chamar Getúlio de “simplório”, é um absurdo. Foi um gênio político, um estrategista, um líder carismático. Lia e falava fluentemente em francês. Ou seja, o adjetivo foi muito mal escolhido.
Não quero discutir português, mas simplório, não é pejorativo, é sinônimo de humildade.
Não são os títulos, os cargos e a riqueza material que fazem um homem não ser humilde, são suas atitudes.
A bombacha, a guaiaca, o lenço no pescoço,a camisa xadrez, a cuia de chimarrão, o pijama de listras, tudo isso mostrava a simplicidade de um grande homem.
Não ter ambições para si mesmo, demonstra simplicidade.
Getúlio era um homem de ambições coletivas.
Hoje temos pessoas no poder com gravatas Yves, ternos Armani, sapatos italianos,
uns dirão que é fruto do progresso.
Getúlio se vivo fosse, jamais destruiria o setor calçadista brasileiro, usaria roupas produzidas no Brasil, não dispensaria as suas tradições, e o pijama de seda.
Somente quem vive no inverno sabe que a seda não dissipa o calor do corpo, deixando aquecido quem a usa para dormir.
Ser humilde não é ser pobre, não ter humildade sim é a pior pobreza de espírito.
O adjetivo pode ter sido mau, mas mal escolhido depende da conotação que dermos a simplório, a verdadeira ou a popular.
bom dia,