Há tempos quero escrever este texto. O governo Lula começou, em 2003, como uma esperança extraordinária para o povo brasileiro. Lembro de alguns erros iniciais. O primeiro, ainda no final da apuração, quando Lula foi ao estúdio do Jornal Nacional, foi entrevistado e convidado a permanecer até o final do Jornal. Não deveria aceitar. Ingenuamente aceitou. Um candidato eleito, um Presidente da República eleito, nunca pode ficar mais do que o tempo imprescindível. E, ingenuamente aceitou permanecer até o final do jornal, já esgotada a entrevista. É só uma mostra da ingenuidade original, primeira, que ainda habitava o Presidente da República.
II
Um segundo momento: a foto presidencial. Lula estava sem a faixa presidencial. Sonhamos, durante anos, ver um operário com a faixa presidencial. E alguém da área do marketing, ou coisa assim, resolveu fotografar o primeiro Presidente operário sem a faixa. Pensei comigo, à época: “cadê a faixa presidencial? Deve estar com o Meirelles.”
III
Terceiro momento: a reforma do Palácio da Alvorada. Um grupo de empresários foi chamado a financiar a obra. E dentre esses empresários havia, inclusive, os acusados de sonegação de tributos e de contribuições à previdência social. Era o nosso Presidente da República humilde, quase humilhado, pedindo que os empresários consertassem um palácio velho, inabitável, caindo aos pedaços. Não entendia Lula, naquele momento, que o Palácio presidencial é um símbolo, e que o povo tem, sim, o dever de custear a reforma imprescindível do palácio do Presidente da República. Mas havia ali a vira-latice de Lula. E eu entendo e me identifico com essa vira-latice. Mas foi um erro, sim, e esse erro foi visto, à época.
IV
O primeiro momento do governo Lula foi o do neoliberalismo mais caridade. O Banco do Brasil, por exemplo, permaneceu com a mesma linha do governo anterior: servia para dar lucro, e era medido pelo lucro que dava. A reforma da previdência feita no início do governo Lula foi uma tragédia, de tal maneira que até hoje não foi regulamentada: é que a reforma é mais cara do que o sistema atual, que vai se prolongando. E, além disso, nessa reforma a Constituição Federal foi modificada para aceitar a privatização do SAT – o Seguro de Acidentes de Trabalho. Ou seja, era a face neoliberal inicial do governo Lula. Consideravam-se, portanto, os novos príncipes do neoliberalismo. E aí eram incluídas, inclusive, as altas taxas de juros. E estava a continuidade dos leilões de bacias petrolíferas. E ali estava a liberação dos transgênicos. E ali estava toda a política de previdência complementar, que até hoje continua exatamente a mesma.
V
E aí veio o episódio do tal “mensalão”. Na verdade, a continuidade de um esquema montado pelo PSDB de Minas Gerais, que pariu e desenvolveu Marcos Valério. E quem aceitou aquele esquema deve ter se sentido o sujeito mais inteligente do mundo: “com o mesmo esquema deles, como irão nos denunciar?”. Raciocinou errado, o governo quase veio abaixo. Era o velho esquema de financiamento de campanhas por baixo dos panos, que quase todos utilizavam, mas que findou estourando exatamente em que se colocava com paladino da moralidade.
VI
E aí é que começou a mudança. Lula provavelmente viu que não era o “novo príncipe do neoliberalismo”, que seus novos aliados não resistiram à tentação de desferir a primeira punhalada pelas costas. Não era o novo “príncipe do neoliberalismo”: continuava sendo um operário, tão somente tolerado na mesa dos grandes. Ali alguma coisa começou a mudar.
VII
De repente, em 2006, ressurge a defesa do Estado, um Estado a serviço do povo, não uma privatização a serviço de alguns. Lembremos: a energia elétrica, no Brasil, é a mais cara do mundo. O preço da telefonia é um absurdo. O acesso à banda larga da internet é uma vergonha: na Europa, pela metade do que pagamos aqui, há acesso a 60 megas de velocidade, e não os miseráveis 2 megas que nos oferecem. Curiosamente, apunhalado pelos seus novos amigos, o governo Lula começou a procurar bandeiras históricas. E ali venceu a eleição de 2006.
VIII
E ali a situação se complicou: o Ministro que pagou uma tapioca com o cartão corporativo – estava em viagem, era seu lanche, pagou com a verba do cartão, melhor do que comer um big mac. Mas quase houve CPI por causa da tapioca. E houve a febre amarela, onde a imprensa jogou a população em pânico, e houve gente que morreu porque tomou 3, 4 vezes uma vacina que deve ser tomada uma vez só. A cada semana uma denúncia, que acaba sendo esvaziada porque não fez suficiente estrago.
IX
O governo que está aí, hoje, não é o mesmo de 2003. Sem dúvida, Lula nasceu virado para a lua. E teve a sorte de ver o desabamento das economias mundiais provocado exatamente pelo excesso de liberalização, pela falta de controles, por uma jogatina infernal criada pelos mercados financeiros. Estava ali a chance extraordinária de dar novo rumo ao Brasil. Escapamos da crise – e escapamos, sim – justamente pelo que havia de “jurássico”: o BNDES, o BB, a CEF, o BASA, o BNB, a Petrobrás. E há o PAC, concebido antes da crise, e que só precisou ser turbinado quando a crise chegou. Enquanto as empresas privadas demitiam a rodo, as estatais mantinham seu investimento para impedir o atoleiro. E foi isso o que nos tirou do atoleiro. E por isso é que a Veja, neste fim de semana, fala que aqui só houve, mesmo, marolinha. E é por isso que a Folha de São Paulo reproduz matéria de um jornal estrangeiro onde o Brasil é apontado como um dos poucos que sairão da crise mais fortes do que entraram.
X
A oportunidade da crise foi extraordinária: a Islândia, um país absolutamente estável, engoliu a fórmula da liberalização absoluta, da privatização completa, e simplesmente quebrou. Um país desenvolvido, estável, quebrou pela absoluta irresponsabilidade. Não havia mais Estado, tudo tinha sido privatizado.
XI
Aí veio a discussão do pré-sal. No primeiro momento, tentaram negar: não é nada, ou não se consegue extrair. No segundo momento, foi afirmado que “não há tempo” para discutir. A seguir, é dito que a produção só estará boa em 2015, e, portanto, só devemos discutir o assunto em dezembro de 2014. No último momento, enfim, surge o argumento: não dá para mudar o modelo atual. É preciso continuar entregando o petróleo para as multinacionais. E manter o Brasil em eterna dependência. O projeto enviado pelo governo ao Congresso está certo: é preciso mudar a legislação do petróleo, é preciso fazer com que essa riqueza seja, de fato, o nosso ingresso no grupo de países desenvolvidos.
XII
Esse governo que está aí tem os seus bolsões de neoliberalismo, ainda. E cito o principal deles: a área de previdência complementar. Não conseguem pensar o País, não conseguem pensar o futuro dos trabalhadores, não conseguem pensar nas vidas dos aposentados e pensionistas, não conseguem sequer pensar uma política de ampliação da previdência complementar. Estão lá em 2003, na fase neoliberal do governo Lula. E continuam com a mesma política.
XIII
O Brasil caminhou, sim. A compra de submarinos franceses para defender nossa costa é imprescindível. Por incrível que pareça, Eliane Cantanhede – a da febre amarela – resolveu elogiar a iniciativa na Folha de domingo. A Veja, curiosamente, resolveu dizer, há duas semanas, que o ônus da prova no caso da ex-Secretária da Receita Federal é de quem acusa, ou seja, da própria secretária. De alguma forma, a imprensa tenta se reposicionar para o que interessa: resgatar um pouco da credibilidade perdida para concentrar tudo, agora, na questão do pré-sal. Pretendem continuar com a política dos leilões absurdos de bacias extraordinárias.
XIV
Em seguida teremos a compra dos caças, também franceses. O Brasil deixará de ser um país de defesa ridícula, miserável, para se tornar alguém que pode defender sua soberania.
XV
Há muito o que fazer, ainda. Esse governo não é o mesmo de 2003, não é o mesmo do tal “mensalão”. O mundo não é o mesmo. Bush caiu, Obama venceu. Todos os grandes bancos norte-americanos quebraram. E Lula, nascido para a lua, viu isso e conseguiu se colocar frente a isso. A imprensa é que não conseguiu. E a maior parte da oposição também não.
XVI
Há muito o que fazer. É preciso reordenar a máquina da administração, é preciso romper os bolsões do neoliberalismo que ainda existem dentro do governo. É preciso construir uma sociedade onde haja amparo social, onde exista o respeito às leis. É preciso construir uma sociedade livre – onde haja, sim, apoio à livre iniciativa, mas que essa livre iniciativa não signifique liberdade de escravizar o próximo. É preciso apoiar a indústria nacional e, ao mesmo tempo, exigir a melhora nos salários, nas condições de trabalho, nas aposentadorias e nas pensões.
XVII
Repare no que dizem as revistas neste fim de semana: colocam-se CONTRA o reajuste das aposentadorias, afirmando que está sendo criada uma “futura herança maldita”. Pregam a continuidade do empobrecimento dos aposentados, das pensionistas, tudo como mecanismo de concentração de renda: não dê aos aposentados, dê aos bancos, às privatizadas.
XVIII
É preciso avançar no rumo da construção de um Brasil livre. Livre para o desenvolvimento, livre para que os cidadãos se sintam amparados pela lei. Livre da corrupção. Livre das chicanas que mantém os corruptos soltos até que seus crimes prescrevam. É preciso, no entanto, cuidado para não fazer coro exatamente com aqueles que pregam, hoje, o rebaixamento das aposentadorias, que continuam com o mesmo discurso miserável de que o INSS é deficitário.
XIX
É possível construir um novo País: desenvolver tecnologias, renovar o parque industrial, apoiar pesadamente nosso empresariado. E é preciso que isso seja feito de forma que a grande massa, o povo, também seja beneficiado. Ou seja, é preciso um desenvolvimento capitalista, sim, mas sem a concentração brutal de renda nas mãos de alguns.
XX
Enfim, é necessário olhar para os dois momentos do governo Lula. Errou pesadamente no primeiro momento, passou a acertar já em 2006. Manteve erros, mantém o real supervalorizado, mantém uma política monetária suicida. Mantém a negação da responsabilidade sobre os atos do Estado – quando, por exemplo, tenta evitar sua responsabilidade sobre a quebra de fundos de pensão que somente quebraram porque a União autorizou ilegalidades. Mantém-se insensível ao sofrimento que causou. É preciso, no entanto, afinar o foco das críticas, é preciso pressionar para que o governo não seja pressionado exclusivamente pelos que querem retomar o modelo que levou à quebra da economia mundial, que quer reduzir aposentadorias, terceirizar, aviltar.