out 26 2009

OBAMA, A FOX, O LOBBY E O BRASIL

Postado por at 11:47 sob Uncategorized

A Fox norte-americana foi quem sinalizou o golpe da eleição de Bush. Na primeira eleição, concorrendo contra Al Gore, nenhuma das televisões havia adiantado qualquer prognóstico, particularmente em virtude da confusão que havia na Flórida. Naquele Estado houve exclusão de eleitores, particularmente negros e pobres. E negros são, historicamente, eleitores do Partido Democrata. A grande fraude daquelas eleições aconteceu na Flórida. A seguir, a Fox anunciou a vitória de Bush, pendente, ainda, a apuração. E no momento seguinte houve o golpe de estado dado pela Suprema Corte.

 II

Duas questões importantes aí: a primeira, que a divulgação do golpe, ou seja, da suposta eleição de Bush – quando não estava eleito – veio da Fox. A segunda, que é possível, sim, a uma Suprema Corte dar um golpe de Estado. Por isso se deve ter, sempre, um olho no peixe o outro no gato.

 III

A Fox, agora, fez uma campanha brutal contra Obama. Atacou, essencialmente, o projeto de criação de um plano de saúde público nacional. Por incrível que pareça, os EUA não têm um sistema único de saúde acessível a todos. A França tem, a Grã-Bretanha tem, os EUA não tem. Era essa a grande discussão que estava sendo travada. O mais impressionante foi o nível dos ataques contra Obama. Foi chamado, ao mesmo tempo, de comunista e de nazista. A ultra-direita norte-americana acusa tudo o que não for o absoluto liberalismo, o absoluto “cada um por si”, de “comunismo”. Houve campanhas nas televisões, houve ataques. O projeto acabou sendo aprovado com muito esforço.

 IV

Nesse momento, duas posições se destacaram: a primeira, da Fox; a segunda, de uma tal “Câmara Americana de Comércio”. É uma entidade que se diz associativa, representante de “três milhões de empresas”. Essa entidade financia campanhas, faz anúncios na televisão, atua pesadamente em defesa do que afirma ser os interesses das “três milhões de empresas”, embora haja quem afirme defender apenas as 300 maiores empresas dos EUA.

 V

O governo Obama atacou frontalmente a Fox. Afirmou que se comporta como um partido político, não uma empresa de notícias, e que, portanto, será tratada como partido político. E passou a pressionar a Câmara Americana de Comércio. A Apple, por exemplo, se retirou da entidade; a Nike se retirou do quadro de diretores.  O governo Obama passou a conversar diretamente com as empresas, não mais com a Câmara Americana de Comércio.

 VI

Há outros temas em discussão, a começar pela reforma do sistema financeiro. Há um lobby imenso para que tudo permaneça como está. E o governo Obama quer modificar profundamente essa estrutura terrível e irresponsável do sistema financeiro.

 VII

Voltemos ao ponto anterior. O governo Obama atacou frontalmente a Fox. O que aconteceria se fosse aqui no Brasil, se o governo atacasse a postura de um canal de televisão? Pois é. Imediatamente viria a acusação de “autoritário”, “antidemocrático”. Há até uma organização chamada de Sociedade Interamericana de Imprensa, ou nome parecido, especializada em ter ataques histéricos sempre que qualquer crítica – justa ou injusta – é feita a algum órgão de comunicação. A imprensa, para esses, é inatacável e perfeita. Há poucos dias publiquei, inclusive, que o Presidente do Senado foi atacado porque disse que “quem foi eleito para representar o povo foram os parlamentares, não a Imprensa”. A imprensa ficou ofendida: acha que foi “eleita” para representar o povo. São empresas privadas, lucrativas, poderosas, que se arvoram uma “representatividade” democrática conferida não se sabe por quem.

 VIII
Pois bem: voltemos, de novo. Primeiro, foram membros do primeiro escalão do governo Obama. Depois, foi o próprio Obama que atacou frontalmente a Fox. E atacou acusando de ser um braço do Partido Republicano. E, de fato, é. Obama usou seu sagrado direito de crítica para criticar.

 IX
E mais: atacou pesadamente a Câmara Americana de Comércio. Seria o equivalente, aqui, a atacar a CNI – Confederação Nacional da Indústria, ou mesmo a FIESP. E Obama desqualificou a CAC e passou a negociar diretamente com os empresários. Recusou-se a conversar com a entidade que congrega os lobistas, e passou a conversar diretamente com as empresas. O que aconteceria aqui no Brasil? Seria acusado de “ignorar a representatividade das associações” e “impor uma políica autoritária”.

 X

Esse episódio nos EUA é importantíssimo para análise. Primeiro, porque a imprensa está sendo enfrentada, particularmente o grande canal golpista. Segundo, porque uma grande associação empresarial – na verdade, um grande lobby – está sendo abertamente combatido.

 XI

Repito a pergunta: o que aconteceria por aqui se o Presidente da República rebatesse os ataques de um órgão de imprensa? O que aconteceria se denunciasse as manobras lobistas de uma entidade empresarial? O mundo viria abaixo! A imprensa denunciaria que está sendo atacada, pediria apoio internacional, gritaria que a própria democracia estaria sob risco!

 XII

Ou seja, o papel da grande imprensa brasileira é único no mundo. É monopolista, conservador, frequentemente golpista. Inventa notícias e as repercute sempre em um  pequeno meio, sempre a partir dos interesses da aristocracia quatrocentona paulista. É a imprensa que levou ao suicídio de Getúlio em 54, que apoiou o golpe militar de 64. E que hoje se arvora em “representante da sociedade”, sem nunca ter recebido um voto.

8 respostas até o momento

8 Respostas em “OBAMA, A FOX, O LOBBY E O BRASIL”

  1. Samuel Limaem 26 out 2009 �s 13:02

    Mestre,

    Simplesmente brilhante o texto. Acrescentaria apenas uma coisa: o protagonismo antidemocrático da imprensa já causou danos a um sem-número de vítimas, civis e cidadãos comuns, como o célebre caso da “Escola Base”, em S. Paulo. Mas, também já fulminou carreiras e reputações, como nos casos do ex-deputado Ibsen Pinheiro (a quem a Veja acusou de corrupção sem provas) e do ex-ministro Alceni Guerra (o chamado “escândalo das bicicletas”, que se mostrou falso).

    Mesmo assim, o setor hegemônico da mídia de expressão nacional tentou obstar, de todas as maneiras, a realização da Conferência Nacional de Comunicação. Há exatos 21 anos a Constituição Federal (em seu artigo 223) aguarda regulamentação…

    O gesto do governo Obama Barack aponta um caminho para o resgate dos compromissos democráticos das empresas de comunicação. Não por acaso foi tratado com desdém e desqualificado pelas principais empresas de comunicação do País.

    Parlamentares e governos, em todos os níveis, são eleitos pelo voto direto e secreto, pelos cidadãos e cidadãs brasileiros. Ali Kamel, Miriam Leitão, Diogo Mainardi, Alexandre Garcia, Merval Pereira et caterva não receberam um único miserável voto para falar em “nome do interesse público”.

    Saludos democráticos

  2. Pereiraem 26 out 2009 �s 15:40

    Eu sabia que não seria colocado a minha resposta.
    obrigado.

  3. Felippelloem 26 out 2009 �s 20:28

    Pereira, eu nem me atrevo. Estou acostumado.

  4. Clovis IIem 26 out 2009 �s 20:59

    A imprenssa brasileira em sua maioria é muito tendenciosa principalmente
    quando necessita de tirar proveito de uma situação.
    A audiencia ou mesmo a venda de revista, de jornais vem em primeiro lugar
    mesmo que isto signifique jogar na lama quem quer que seja.
    Ai daquele que se rebelar com a imprenssa pois estará comentendo um
    erro dos mais graves. A imprenssa se sente poderosa pois tem em maõs
    uma arma mortal , a colocação nos meios de comunicação o que quiser e
    contra quem for. O uso deste poder é temido por muitos e alem disto existe
    um corporativismo de inigualavel tamanho.
    O termo “liberdade de imprenssa” é usada por muitos para explicar o inesplicavel.

  5. o anarquistaem 27 out 2009 �s 00:45

    Esse eh o resultado de lei mal feita, liberdade de imprensa sem responsabilidade eh perigoso. Se a lei fosse bem feita quem divulga uma noticia falsa, em que a mesma desmoraliza alguem, o autor e quem a divulgou, deveriam ser julgados e se condenados, pagarem com altas multas e dependendo do grau ate cadeia, ai sim a liberdade de imprensa teria o seu devido valor.

  6. Felix S.R.Netoem 27 out 2009 �s 09:38

    Samuca.
    O que me gera curiosidade é sobre o que estaria subjacente a uma espécie de acordo tácito, que se sobrepõe até à competitividade esperada de empresas que disputariam o mesmo segmento de mercado, se a “vítima” é o atual governo. Excluído “Carta Capital”, qual o órgão que diverge?
    No caso do acidente com o vôo 3054, p.ex., o cabeça de casal global, compungido e lacrimejante, do alto de sua competência aeronáutica, elegeu de imediato a base da pista do Congonhas como causa-base pro avião ter ultrapassado seu comprimento. Depois, a perícia tornou bem clara a questão do reverso (recorde-se que o mesmo canal havia mostrado o avião em excesso de velocidade, comparada a outros pousos na mesma pista, sob o mesmo mau tempo e horário). Até a intuição diria que aquele acidente teria causa(s) singular(es). Mas como bater no governo com erro de fabricante, transportadora e/ou tripulação, além de fator aleatório?
    Bem, mas depois, excluído o governo como responsável, o Assessor da Presidência é destacado por vários concorrentes entre si, “dando uma banana”. Obviamente destaque de forma sarcástica, dada a liturgia respeitável com que preferem constranger políticos do Executivo. Autocrítica destacada em relação à “barriga jornalística”, nem pensar! Uma priminha minha se queixava que a mãe dela, depois de sapecar-lhe umas palmadas (antigamente podia) ainda advertia: “agora engole o choro”. Não poderia nem chorar a criança.
    Ou seja, o formador de opinião pode ser temerário e histriônico, o indignado não!
    Empresas de comunicação concorrem por furos, fontes, exclusividade etc., mas nunca pra redimir o atual governo. Por que? No entanto, se a Administração Pública incentivar “blogs” esclarecedores como a PETROBRAS desenvolveu, a liberdade de imprensa é acenada para tentar inibir. “4º Poder”, apelidavam antigamente. Quais seriam os outros três?
    Abraços.

  7. Pereiraem 27 out 2009 �s 10:54

    Filipello,só pq falei que um é preparado e outro não!

    Resposta – Pois é. Que injustiça. E falou exatamente nesse tom sóbrio, tranquilo e educado como fez agora.

  8. Sérgio Salgadoem 27 out 2009 �s 14:23

    Meu caro Dr. Maia, boa tarde !!!

    Há muito perdi o prazer da leitura do jornal. Uma boa parte de grandes jornalistas (e olha que ainda tem) foge da camisa de força que seus donos lhes impõem. Nassif é exemplo.
    Uma coisa é ser teórico e outra bem diferente é a questão prática. Vai daí que passa por isso a falta do entendimento dos grandes movimentos sociais que a eles não se submetem e a eles enfrentam.
    É uma lástima que o Lula não tenha pensado jamais em um projeto de governo e se encantou rapidamente com o projeto de poder. Perdemos todos.
    Não sou americano, não tenho contato com o pessoal de lá e a maioria das informações que recebo são fruto dos nossos jornais. Em princípio, a confirmar as leituras com a sua postagem de hoje, só há uma coisa a lamentar, nosso Lula perdeu a chance de passar para a história (ao menos a minha página da história, pois ainda que o criticando ferrenhamente, não há porque negar que ele ainda assim faz o melhor governo sob o qual vivi em meus 44 anos de eleitor). Explico melhor, perdemos a chance de fazermos uma revolução social ao não enfrentarmos os quatrocentões deste país e, pior nos submetemos a eles ao fazermos da prática corrupta deles o nosso alimento.
    No último discurso (do farisaísmo) fica mais uma vez clara e bem evidenciada a postura dessa imprensa chamada corretamente de PIG (partido da imprensa golpista). Será que só eles não sabiam que não temos qualquer partido com ideologia neste país ? Me engana que eu gosto.
    O fhc comprou por 200.000 dinheiros mais 4 anos e por conta disso cansou de dizer a mesma coisa que o Lula. Lá ninguém se incomodou, era o príncipe. Como o plebeu faz o mesmo eles jogam no ventilador e tentam envolver setores retrógrados da igreja (aqueles mesmos que há 1000 anos queimavam os que enxergavam adiante do seu tempo).
    O Obama está fazendo alguns enfrentamentos que eu sinto bastante não ter visto aqui.

    Sérgio Salgado

Trackback URI | Comments RSS

Deixe uma mensagem.