Ouvi na CBN, há poucos dias, uma mulher falando sobre propagandas voltadas para crianças. Há um movimento em todo o mundo para limitar a exposição das crianças a esse tipo de bombardeio. Essa comentarista que ouvi, no entanto, fazia um discurso “pela liberdade”, e que quem deve escolher o que a criança pode ou não consumir são os seus pais.
II
É esse o mundo em que vivemos. As crianças não têm senso crítico formado. A ingenuidade é uma característica tipicamente infantil. E justamente por isso são criaturas frágeis frente a esse bombardeio. A questão não diz respeito só a brinquedos ou a modas, mas a alimentos e assemelhados. Ou seja, refrigerantes, biscoitos, balas, cereais, iogurtes e assemelhados.
III
Esses produtos contêm, além de açúcar – que prejudica o pâncreas e pode levar ao diabetes – e da farinha branca, que também se transforma em açúcar, uma infinidade de aditivos, parte deles já comprovadamente cancerígenos. Há, ainda, corantes, estabilizantes, acidulantes, conservantes e mais um sem número de produtos químicos. A idéia, portanto, é impedir a propaganda voltada às crianças, aos que não têm condições de discernir.
IV
O que está em jogo com isso? O “mercado infantil”. Embora crianças não tenham renda, são orientadas pela propaganda a exigir dos pais. A propaganda, então, deseduca, impõe um padrão de comportamento e de consumo. Só que, no que se refere a alimentos, esse comportamento é nocivo à saúde da criança. A obesidade é apenas a face mais visível do problema.
V
Como se trata de um “mercado”, e não da saúde de nossos filhos e netos, no entanto, vira uma briga terrível. A questão é tratada como se não dissesse respeito à saúde, mas a outras questões: é a “liberdade”. Liberdade de quem? Da imprensa em angariar anunciantes também nessa fatia de mercado. Essa discurseira, a propósito, de “liberdade”, feita cotidianamente na imprensa, já ultrapassou o ridículo.
VI
O Estadão, por exemplo, estampa até hoje a melancólica frase “sob censura há 200 dias”. É ridículo, ninguém mais dá bola. O Estadão simplesmente foi proibido de publicar peças de um inquérito que está sob segredo de justiça. Há poucos dias houve um tal “Fórum da Liberdade de Imprensa” promovido por um tal “Instituto Millenium”. Quem estava lá? O baronato, ou seja, os donos de O Globo, Folha, Estadão, Veja, e mais um ou outro. E, evidentemente, seus principais colunistas, muito bem assalariados. E pregavam a “liberdade, liberdade”, como se houvesse alguma terrível ameaça à vista. Que ameaça há? Nenhuma. Há, apenas, uma histeria de conteúdo nitidamente eleitoral e a propaganda permanente de um programa de governo. Qual programa? O das privatizações, o da redução dos gastos públicos, e o das “reformas”, aí incluída a reforma trabalhista e a da previdência. Ou seja, há um programa político, de natureza neoliberal, sob o grito de “liberdade, liberdade”.
VII
A esperteza desse tipo de gente está em abrir uma bandeira que serve somente a eles, mas fazendo de conta que serve a todo mundo. Internamente, “queremos mais dinheiro dos anunciantes, mesmo que seja vendendo porcarias para as crianças”; para o grande público, no entanto, é divulgado como “a liberdade de imprensa e de propaganda não pode ser ameaçada pelo Estado autoritário”. E aí os ingênuos correm para debaixo dessa bandeira. E isso em tudo que é lugar. “Grilei 10.000 hectares de terra e estão querendo a terra de volta” é transformado em “a propriedade rural está sendo ameaçada pelos comunistas”. E tome gente inocente a acreditar que o pobrezinho do latifundiário está sendo ameaçado.
VIII
O nome dessa técnica é “amplificação”. É usada o tempo todo, às vezes para o bem, às vezes para o mal. Se um negro for agredido, poderá dizer: “a agressão não foi contra mim, mas contra os negros”. E pode ser verdade, pode ser um ato de racismo contra todos. Mas há aquela amplificação que falamos há pouco, onde o sujeito acomoda o seu interesse escuso por detrás de uma bandeira aparentemente justa.
IX
No caso das crianças, essa situação é mais grave. Diz respeito à saúde, a facilitar o acesso de crianças a produtos cancerígenos, a produtos que causam uma infinidade de desequilíbrios e doenças. Isso deveria ser algo pacífico. Um texto como este aqui nunca deveria ser publicado, não deveria haver essa necessidade. Mas há, no entanto, um movimento para manter as crianças reféns da propaganda, inclusive no que se refere à ingestão de alimentos ou assemelhados. Para quem é bom esse acesso das crianças? Somente para os fabricantes e para a imprensa que vive de propaganda.
X
Qualquer animal protege suas crias e os dos outros do bando. É instinto. Nos humanos, no entanto, é diferente. Há aqueles que trocam a saúde das crias por dinheiro. É de espantar que um ser humano se disponha a cumprir esse papel em troca de dinheiro. Mais decente seria roubar, sem dúvida.