O “rei dos dossiês” era ACM – Antônio Carlos Magalhães. Durante seu longo reinado, por diversas vezes divulgou a existência de dossiês contra desafetos, o que normalmente ficava só na ameaça: não divulgava os tais dossiês. Valia-se, tão somente, da ameçada.
II
ACM se deu mal, no entanto, com Itamar Franco. Quando Itamar era Presidente da República, em gesto bombástico ACM disse que entregaria um dossiê sobre corrupção no governo federal. Itamar, então, resolveu receber ACM na presença dos jornalistas que cobrem o Planalto, em audiência pública, e aproveitou para entregar um dossiê sobre corrupção no Estado da Bahia. ACM não era acostumado ao jogo às claras, e saiu desconcertado do encontro com Itamar à frente das câmeras.
III
O que é um dossiê, afinal? É um apanhado de papéis. O que na interessa, na política, é (1) se os papéis dizem respeito à vida pública ou à vida privada; e (2) se a documentação traz informações verdadeiras. Se disser respeito à vida pública, e se as informações forem verdadeiras, faz parte do jogo político. Ninguém espera que um dos competidores, sabendo que o outro é chegado em uma falcatrua ou em fraudes, fique em silêncio. Daí que é curioso ver a impresa chiando tanto em relação a “dossiês”, tratando como se fosse algo absurdo. Quem tem munição contra o adversário político deve usar, seja ou não na forma de dossiês.
IV
Já ouvi muita conversa, em Brasília, sobre dossiês. Uma, particularmente, há uns 2 anos, chamou a atenção: dizia respeito a denúncias de consumo de cocaína por um sujeito graúdo, inclusive com referência a fotos feitas por arapongas. Não sei se isso é verdade, nunca apareceu. Parece que faz parte de alguma guerra de nervos movida por um político contra o outro. É provável que nunca apareça, é provável que sirva, apenas, para tentar macular a imagem do suposto fotografado.
V
Agora, o País assiste a uma nova discussão de “formação de dossiê”. As informações são falsas ou verdadeiras? Curiosamente, a imprensa fugiu dessa discussão, preferindo centrar, tão somente, na informação de que estaria sendo montado um dossiê. Inicialmente, a notícia veio pela Veja. A seguir, O Globo deu repercussão, e acrescentou algo: estaria no dossiê a sociedade entre a filha de José Serra e a irmã de Daniel Dantas.
VI
A história é curiosa. Justamente O Globo chama a atenção para esse “vínculo familiar” envolvendo Serra e Daniel Dantas. Ou seja, buscou antecipar-se, detonando antecipadamente uma notícia para, primeiro, dar validade à especulação sobre o tal dossiê; segundo, para esvaziar essa mesma notícia envolvendo Daniel Dantas. Não veio em manchete, não veio em letras garrafais.
VII
O jornalista Ricardo Noblat publicava, em 01.06, nota de um leitor onde estava escrito – ” “Decidir.com, Inc. é uma empresa multinacional, registrada em Miami no dia 3 de maio de 2000 sob o número P00000044377, na qual foram sócias Verônica Dantas Rodemburg, irmã de Daniel Dantas, do Banco Opportunity, e Verônica Allende Serra, filha do governador José Serra. Seu site oferecia oportunidades de negócios, inclusive na área de licitações públicas no Brasil. “Encontre em nossa base de licitações a oportunidade certa para se tornar um fornecedor do Estado”.
VIII
A notícia, no entanto, é velha: a Carta Capital já publicou essa vinculação há algum tempo, sem que houvesse maior repercussão. Agora, a notícia surge para dar credibilidade a um suposto dossiê que estaria em elaboração. Uma notícia velha atestaria que estava em elaboração um dossiê.
IX
Parece que a história sobre o tal dossiê é diferente.
X
Segundo Nassif e segundo Paulo Henrique Amorim, o que há é a confecção de um livro. O autor é Amaury Ribeiro Júnior, ex-repórter do Estado de Minas e de vários grandes jornais, ganhador de 3 prêmios Esso e 4 prêmios Vladmir Herzog. O livro de Amaury diz respeito às privatizações, essencialmente à privatização da Vale do Rio Doce e o episódio conhecido como “no limite da irresponsabilidade”, frase dita pelo então Diretor do BB, Ricardo Sérgio, ao então Presidente da República FHC.
XI
Aqui vai um trecho da Introdução do livro de Amaury Ribeiro, retirado da página eletrônica de Paulo Henrique Amorim – “Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou nas mais importantes redações do país, tornando-se um especialista na investigação de crimes de lavagem do dinheiro, vai descrever os porões da privatização da era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o processo de venda das empresas estatais. Ou se aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar, além disso, como ter parentes ou amigos no alto tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três dos seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Todos eles, afirma, tem o que explicar ao Brasil.
Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu primo Gregório Marín Preciado, casado com a prima do ex-governador Vicência Talan Marín. Além de primos, os dois foram sócios. O “Espanhol”, como (Marin) é conhecido, precisa explicar onde obteve US$ 3,2 milhões para depositar em contas de uma empresa vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do Banco do Brasil durante as privatizações dos anos 1990. E continuará relatando como funcionam as empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador, Verônica Serra e por seu genro, Alexandre Bourgeois. Como os dois tiram vantagem das suas operações, como seu dinheiro ingressa no Brasil …
XII
Voltamos ao ponto: a simples existência de um dossiê, ou sua confecção, é problema? Entendo eu que não. Prá ser franco, acho que faltam mais dossiês. Por exemplo, sobre o motivo pelo qual alguns são pela continuidade do entreguismo das licitações de bacias petrolíferas; sobre as ligações de dirigentes de agências ditas “reguladoras” com as empresas por elas fiscalizadas; sobre o número de concessões de rádio e televisão que estão nas mãos de políticos. Ou seja, o que interessa é se a informação diz respeito à vida pública (excluindo, portanto, acusações relativas à orientação sexual dos candidatos, à sua fidelidade ou infidelidade conjugal) e se as informações coletadas são verdadeiras.
XIII
Enfim, a campanha eleitoral está só no começo. Pelo visto, no entanto, a pancadaria irá aumentar. E o curioso é que um livro já parcialmente escrito, com pesadas acusações, subitamente é transformado em “dossiê” pela grande imprensa. Seu suposto conteúdo, no entanto, simplesmente não é trazido a público pelos jornalões.