Já publiquei a respeito do meu apoio à construção do trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio. Na verdade, já publiquei textos afirmando a necessidade de se ter um plano vintenário de ferrovias, que tenha como meta integrar todo o Brasil com trens de alta velocidade. No caso do trem-bala Rio São Paulo, entendo que funcionará como demonstração: daqui a pouco, Porto Alegre começará a demanda o seu trem-bala, assim como Recife, e ainda Cuiabá. Ou seja, que o povo, vendo, passe a demandar.
II
O curioso nessa discussão do trem-bala é que há candidatos se declarando francamente contra. E dizem que são contra porque “será em parte construído com dinheiro público”. É a velha cantilena de que o Estado não pode investir, não pode estimular o investimento. Então, se a iniciativa privada não quiser investir, o problema é do Brasil, que ficará sem? E por que o Estado não pode investir? Em que cartilha maldita isso está escrito? Naquela utilizada para impedir que o Brasil crescesse durante vinte anos?
III
É impressionante isso: ainda persiste esse discurso de que o Estado deve ficar ausente de tudo. É o discurdo de Fernando Henrique Cardoso. E aí não adiante esconder o ex-presidente, mandá-lo para o exterior, se o discurso apresentado é exatamente o mesmo.
IV
Já comentei em outra oportunidade, reproduzindo lição do Professor Dércio Garcia Munhoz: na crise de 82, com a ida do Brasil ao FMI, foi estabelecida cláusula de que todo o invstimento das estatais, inclusive das sociedades de economia mista, deveria ser contabilizado como “déficit” do governo. As primeiras a apanhas foram as telefônicas estaduais, embora se financiassem a partir dos “planos de expansão”. Nós mesmos, comprando ações da companhia (era a forma de adquirir o telefone), é que financiávamos a instalação. O FMI, em 82, no entanto, exigiu que até isso – dinheiro nosso, que nós colocávamos nas companhias – fosse contabilizado como déficit no balanço da União. Isso engessou os investimentos, levou ao atraso na instalação de telefones e, finalmente, serviu como o grande discurso para a privatização das telefônicas. E o que houve, então? Ora, a venda das telefônicas para amigos da Corte ou a entrega para as multinacionais. Se você acompanhou a discussão, viu que a Telefônica de Espanha é, sim, assunto do Estado espanhol, assimo como ocorre com Portugal. Os dois países, Portugal e Espanha, estavam, há duas semanas, discutindo os rumos da companhia VIVO. Isso mesmo: eles, lá, os governos, disutindo a telefonia aqui. Por aqui é que foi vendido o discurso de que o assunto não diz respeito ao Estado.
V
É esse discurso de “o Estado não deve se meter” que está sendo novamente feito no caso do trem-bala. É bom porque é honesto, sincero, e o povo brasileiro poderá avaliar se é isso o que deseja, de fato. Mas há mais de discurso velho sendo pregado: é o que diz respeito ao “alinhamento automático” com os Estados Unidos. Bem ou mal, nos últimos anos o Brasil conseguiu colocar os ovos em diversas caixinhas. Nossa dependência em relação aos EUA foi sendo afrouxada. De outra parte, o Brasil ampliou o comércio com a África, com o Oriente Médio, com a América do Sul e com a América Central. Qual era o grande projeto internacional de FHC? A adesão do Brasil à ALCA – Área de Livre Comércio das Américas, onde os EUA propunham “igualdade de competição” entre a sua economia e as dos demais países americanos. O México caiu nessa e está lá, pobre, desindustrializado, dominado pelo narcotráfico. O herdeiro de FHC, há poucos dias, criticou de forma virulenta o Mercosul. Segundo ele, o Brasil deveria abrir mão do Mercosul e negociar diretamente com EUA e Europa. Ou seja, uma sucessão de palpites infelizes que afastou definitivamente o empresariado de sua campanha.
VI
O trem-bala está corretíssimo, se visto como um começo, uma demonstração do que poderá ser uma malha ferroviária de alta velocidade em todo o País. E está correto investir dinheiro público simplesmente pelo fato de que, se ficar esperando pela iniciativa privada, ou não sairá, ou o preço das passagens será muito maior. E a expansão das fronteiras comerciais, inclusive com o Irã, inclusive com a Venezuela, é imprescindível para o País. Lembre do apoio dos EUA à ditadura da Arábia Saudita, lembre da própria China. Ninguém quer saber se há democracia na China, a não se a Miriam Leitão quando quer criticar o governo brasileiro por “negociar com a China, uma ditadura”. Os demais países do mundo fazem comércio, e só. Aqui, é que jornalistas que vivem indo aos EUA em viagens de “estudos” patrocinados pelos diversos órgãos do Departamento de Estado resolvem criticar o seu próprio País.
VII
Por último, veja-se o título do Editorial de O Globo há dois dias: “Uribe está certo”. Qualquer um que esteja à direita do governo brasileiro contará, sempre, com o aplauso de “O Globo”. É o cúmulo do entreguismo, do antipatriotismo. Portanto, não estranhe que a candidatura herdeira de FHC cresça como rabo de cavalo. Seguirá ainda mais nesse destino.