Archive for janeiro, 2011

jan 29 2011

“A BRUXA”

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A Bruxa

       Carlos Drummond de Andrade
                     A Emil Farhat
Nesta cidade do Rio
De dois milhões de habitantes
Estou sozinho no quarto
Estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
Anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida. E sinto a Bruxa
Presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto…
Precisava de um amigo,
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
E a essa hora tardia
Como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
Que entrasse nesse minuto,
Recebesse esse carinho
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal, calma.
Porém a essa hora vazia
Como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos,
Sei os beijos mais violentos,
Viajei, briguei, aprendi
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras

Mas se tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
Querendo romper a noite
Não é simplesmente a Bruxa.
É antes a confidência
Exalando-se de um homem.

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jan 24 2011

“TODOS OS DIAS O POVO COME VENENO”.

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Do blogo do Azenha

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“Todos os dias o povo come veneno. Quem são os responsáveis?”

                                    João Pedro Stedile

O Brasil se transformou desde 2007, no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. E na ultima safra as empresas produtoras venderam nada menos do que um bilhão de litros de venenos agrícolas. Isso representa uma media anual de 6 litros por pessoa ou 150 litros por hectare cultivado. Uma vergonha. Um indicador incomparável com a situação de nenhum outro país ou agricultura.Há um oligopólio de produção por parte de algumas empresas transnacionais que controlam toda a produção e estimulam seu uso, como a Bayer, a Basf, Syngenta, Monsanto, Du Pont, Shell química etc.

O Brasil possui a terceira maior frota mundial de aviões de pulverização agrícola. Somente esse ano foram treinados 716 novos pilotos. E a pulverização aérea é a mais contaminadora e comprometedora para toda a população.

Há diversos produtos sendo usados no Brasil que já estão proibidos nos países de suas matrizes. A ANVISA conseguiu proibir o uso de um determinado veneno agrícola. Mas as empresas ganharam uma liminar no “neutral poder judiciário” brasileiro, que autorizou a retirada durante o prazo de três anos… e quem será o responsável pelas conseqüências do uso durante esses três anos? Na minha opinião é esse Juiz irresponsável que autorizou na verdade as empresas desovarem seus estoques. 

Os fazendeiros do agronegócio usam e abusam dos venenos, como única forma que tem de manter sua matriz na base do monocultivo e sem usar mão-de-obra. Um dos venenos mais usados é o secante, que é aplicado no final da safra para matar as próprias plantas e assim eles podem colher com as maquinas num mesmo período. Pois bem esse veneno secante vai para atmosfera e depois retorna com a chuva, democraticamente atingindo toda população inclusive das cidades vizinhas.

O Dr. Vanderley Pignati da Universidade Federal do Mato Grosso tem várias pesquisas comprovando o aumento de aborto, e outras conseqüências na população que vive no ambiente dominado pelos venenos da soja.

Diversos pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer e da Universidade federal do Ceara já comprovaram o aumento do câncer, na população brasileira, conseqüência do aumento do uso de agrotóxicos.

A ANVISA -responsável pela vigilância sanitária de nosso país-, detectou e destruiu mais de 500 mil litros de venenos adulterados,somente esse ano, produzido por grandes empresas transnacionais. Ou seja, alem de aumentar o uso do veneno, eles falsificavam a fórmula autorizada, para deixar o veneno mais potente, e assim o agricultor se iludir ainda mais.

O Dr. Nascimento Sakano, consultor de saúde, da insuspeita revista CARAS escreveu em sua coluna, de que ocorrem anualmente ao redor de 20 mil casos de câncer de estomago no Brasil, a maioria conseqüente dos alimentos contaminados, e destes 12 mil vão a óbito.

Tudo isso vem acontecendo todos os dias. E ninguém diz nada. Talvez pelo conluio que existe das grandes empresas com o monopólio dos meios de comunicação. Ao contrário, a propaganda sistemática das empresas fabricantes que tem lucros astronômicos é de que, é impossível produzir sem venenos. Uma grande mentira. A humanidade se reproduziu ao longo de 10 milhões de anos, sem usar venenos. Estamos usando veneno, apenas depois da segunda guerra mundial, para cá, como uma adequação das fabricas de bombas químicas agora, para matar os vegetais e animais. Assim, o poder da Monsanto começou fabricando o Napalm e o agente laranja, usado largamente no Vietnam. E agora suas fabricas produzem o glifosato, que mata ervas, pequenos animais, contamina as águas e vai parar no seu estômago.

Esperamos que na próxima legislatura, com parlamentares mais progressistas e com novo governo, nos estados e a nível federal, consigamos pressão social suficiente, para proibir certos venenos, proibir o uso de aviação agrícola, proibir qualquer propaganda de veneno e responsabilizar as empresas por todas as conseqüências no meio ambiente e na saúde da população.

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jan 22 2011

“PEDRO, MEU FILHO…”

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PEDRO, MEU FILHO…

                         Vinicius de Moraes 

            Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nesta terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai ¾ a insensatez de um coração constantemente apaixonado.

                        E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.

                        Da mesma forma que eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.

                        E porque vivemos tanto tempo junto e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.

                        Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e crescente no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acredite acima de tudo.

                        E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.

                        Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.

                        E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.

                        Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestes estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.

                        E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.

                        Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasses chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices tu te haverias também de perder.

                        E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.

                        Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.

                        E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém mais tivesse que lutar:

                        Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho…

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jan 18 2011

STJ E CONTRATO BANCÁRIO EM BRANCO

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Da página eletrônica do STJ

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Banco não pode exigir assinatura de devedor em contrato em branco

A praxe bancária de exigir do devedor a assinatura em contratos em branco é abusiva e fere o Código de Defesa do Consumidor (CDC). O entendimento foi confirmado pelo ministro Luis Felipe Salomão, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ao analisar um recurso do Banco ABN AMRO Real S/A.

O banco interpôs agravo de instrumento no STJ, para que fosse admitido recurso especial contra decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). O Tribunal local manteve a sentença de primeiro grau em uma ação civil pública, na qual o Ministério Público de São Paulo obteve o reconhecimento da ilegalidade da prática bancária, denunciada por um cliente.

O cidadão representou no MP, reclamando que “não achava correto assinar documentos em branco” – contrato de parcelamento de débito e nota promissória. Por se tratar de ação para coibir abusos às normas de proteção do CDC, a atuação do MP foi considerada legítima.

A sentença determinou que o banco não faça “coação” a seus clientes devedores para, “aproveitando a situação de dificuldade financeira do mutuário, exigir que ele assine documentos em branco”. O banco apelou, mas o TJSP manteve a decisão.

No STJ, o ministro Salomão rebateu, ponto a ponto, as alegações do banco. A legitimidade do MP existe, segundo o ministro, porque ele atua na defesa dos interesses dos consumidores, coibindo práticas lesivas aos clientes da instituição financeira.

A ação diz respeito aos consumidores que celebram contratos bancários garantidos por cambiais assinadas em branco em favor do ABN AMRO Real e, também, aos consumidores que, no futuro e nas mesmas condições, poderão vir a contrair empréstimos para a obtenção de crédito ou financiamento. Assim, os interesses estão marcados pela transindividualidade, porque a decisão beneficiará a todos os eventuais contratantes.

Noutro ponto, o ministro não considerou haver julgamento além do pedido (extra petita) porque a ação civil pública objetivava coibir abusos contrários ao CDC. Quanto à alegação de que a jurisprudência assegura ao credor o preenchimento de título de crédito emitido em branco, o ministro Salomão concluiu que o TJSP tratou da exigência de assinatura do contrato bancário, propriamente dito, em branco (na contratação ou recontratação de empréstimo bancário), e não da nota promissória a ele vinculada, como o banco quis fazer crer.

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jan 17 2011

“EFEITO ANUNCIADO DA ‘OBAMAFOBIA’”

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Do Observatório da Imprensa -

Por Muniz Sodré

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EFEITO ANUNCIADO DA “OBAMAFOBIA”

Mesmo em meio à alegre agitação natalina e ao blizzard (tempestade de neve) que parecia soterrar Nova York, é marcante na mídia norte-americana a borrasca de ódio (não se trata de uma mera oposição política) dirigida ao presidente Barack Obama. Não há como interpretar de outro modo a síntese da campanha midiática e republicana contida no material de propaganda política do famigerado “Tea Party”, em que um mapa dos Estados Unidos aparece pontilhado de desenhos de miras telescópicas assestadas contra os distritos dos congressistas democratas visados. Em outras imagens, a republicana Sarah Palin mira com um fuzil o símbolo do Partido Democrata.

O primeiro resultado violento do que se pode chamar de “obamafobia” aparece agora: o estudante Jared Lee Loughner (o nome “Lee” já é uma triste evocação…), de 22 anos, não precisou de mira telescópica, e sim, de uma pistola semiautomática Glock 19, para meter uma bala na cabeça da deputada democrata Gabrielle Giffords e iniciar o tiroteio que matou seis pessoas e feriu vinte outras.

Apesar do histórico psiquiátrico do atacante, não há como deixar de fazer a ligação entre a campanha “obamafóbica” e a virulência republicana do “Tea Party”. Os observadores de imprensa registram que, desde a vitória da oposição nas eleições legislativas de novembro, os ataques ao governo recrudesceram em número e no tom de agressividade. Claro, esse pano de fundo oficial é o barril de pólvora político e psicossocial para “explosões” psicopáticas, como a de agora.

“O irmãozinho débil de Satã”
 

 

É muito mais do que isso, porém. Há quase um ano – mais precisamente em 3 de fevereiro de 2010 –, uma charge de Danziger, famoso caricaturista americano, resumia a situação de Obama frente à mídia extremista. No desenho, Osama bin Laden declarava: “É preciso derrotar Obama. Não há pior no mundo. Ele mente, rouba o nosso dinheiro; ele está cercado de criminosos de Wall Street; ele conduz o mundo à destruição. Se não for parado, milhões de americanos vão cair no endividamento, na escravidão e na destruição. Tudo isso é verdade, eu sei…Eu ouvi na televisão americana.” Ao lado de Bin Laden, uma tela de TV onde aparecia em maiúsculas a palavra FOX com o slogan “Abaixo Obama!”

A FoxNews, como bem se sabe, é a joia do império midiático do magnata Rupert Murdoch. Situada politicamente à direita da direita, a rede televisiva é a grande mobilizadora da obamafobia, disposta a acolher em tempo quase integral os extremistas de toda natureza – de políticos conservadores a delirantes comuns –, para os quais o presidente da República encarna a imagem do “inimigo público número um”, a velha imagem do criminoso popularizada pelos filmes de gangster, movimentados por tipos como Dillinger, Capone etc. Só que as “armas” supostamente ameaçadoras de Obama são coisas como “despesas públicas”, “reforma da saúde”, impostos etc.

Esse cenário televisivo é análogo a uma espécie de reality show da vida política, ou mesmo a uma telenovela, que catalisa os medos e as frustrações dos americanos médios em tempo de crise, em meio a um entorno social que muda rapidamente e vê abalados os valores tradicionais do universo branco. Este último, por sua vez, teme tornar-se minoritário num futuro próximo. Como em todo show, emergem os personagens suscetíveis de encarnar o espírito emergente, a exemplo do apresentador (jornalista?) Glenn Beck, de quem se disse ser “o tipo que diz em voz alta o que pensam as pessoas que não pensam”.

O grande veículo de Beck é, na realidade, a rádio: cerca de 400 estações radiofônicas reproduzem os programas em que ele diaboliza Obama e o caracteriza como “Halfrican American” (americano pela metade), verbera contra os intelectuais de Nova York ou até mesmo contra Nelson Mandela, a quem tacha de “comunista”. Beck, como disse o escritor de histórias de terror Stephen King, “é o irmãozinho um tanto débil de Satã”.

O lodaçal ideológico
 

 

Numa nação onde o espaço público é totalmente recoberto pela mídia, a FoxNews e suas criaturas estabelecem a ponte diária entre a realidade virtual e um tipo de consciência coletiva marcado por uma tradição de bodes expiatórios públicos que remonta às bruxas de Salem, ao complô dos illuminati (tema que aumentou a fortuna do folhetinista Dan Brown), aos maçons, aos imigrantes católicos, aos judeus, aos comunistas etc. O bode expiatório (maiores detalhes no Levítico, Velho Testamento) é sempre um inimigo interno, um construto paranoico e eterna fonte irracional de temores.

Essa conjuntura político-midiática-social foi objeto de um alerta, há um ano, pelo jornal Le Monde. Desde então, leem-se aqui e ali artigos de sujeitos da consciência esclarecida sobre a maré montante do pior na vida americana sob o manto da obamafobia. É como se fosse um filme protagonizado por Jackass, aquele tipo capaz de mergulhar numa piscina cheia de bosta de elefante. Basta dizer que Bush emerge daí como um herói progressivamente popular, vendendo a rodo as suas memórias.

Há apenas dois anos, Obama empolgava o mundo como o primeiro presidente negro da América, como o blizzard abriria uma nova era, sepultando os anos medíocres de Bush-filho. Mas a neve, como bem se sabe, não demora a dar lugar à lama gélida que faz adoecerem os pés desprotegidos. Espera-se que consciência democrática saiba defender-se do violento lodaçal ideológico, midiático ou não, que ameaça a cidadania progressista da cabeça aos pés.

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jan 17 2011

DAS DIFERENÇAS ENTRE OPÇÃO E CONTINGÊNCIA

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No início do governo kirchner, a Argentina foi obrigada a dar o calote. Não tinha mais dinheiro, nem sequer patrimônio. Os anos Menem fizeram a Argentina implantar um regime de privatizações onde nem sua petrolífera escapou, e um regime de plena conversibilidade do dólar. O argentino podia abrir conta em dólar em qualquer banco.

II

Foi uma felicidade absolutamente passageira. A crise consumiu aqueles dólares, que não puderam ser honrados. Na hora de sacar, não havia dólar. Não havia outro desfecho possível. Uma fantasia assim, de plena conversibilidade em um país do terceiro mundo, só se sustentava enquanto houvesse patrimônio público para ser vendido.

III

Claro, esse patrimônio público foi comprado pelos espertos. Em “A Melhor Democracia que o Dinheiro Pode Comprar”, Greg Palast comenta da ligação feita por George Bush filho a Menem. Bush era o representante, o lobista, de uma companhia interessada em privatizações na Argentina. Isso, evidentemente, antes de ser Presidente. Mas dá para ver o jogo pesados. Fica o registro: esse tipo de insanidade só ocorreu porque foi uma febre. Precisou quebrar tudo para que, finalmente, uma criança dissesse que o rei estava nu. E aí, não adiantava chorar na porta dos bancos. Era risível achar que aquele regime de plena conversibilidade poderia ser manter. Não se manteve, quem tentou pegar uma carona viu o sumiço de seus dólares.

IV
Restou a Kirchner reconhecer – foi só reconhecer – que a Argentina não tinha como pagar o que devia. Declarou a moratória e, em momento seguinte, propôs a troca dos títulos antigos, não pagos, por títulos novos, a um quinto, se não me engano, do valor dos anteriores. Seriam trocados títulos inchados, fruto da especulação, que já haviam rendido muito, por títulos de menor valor. Não havia outra saída. A rigor, não foi uma opção: foi uma contingência.

V

Tudo isso para dizer que, agora, a revista The Economista propõe o calote parcial de dívidas pela Grécia, Portugal e Irlanda. Essa lista – agora digo eu – pode até crescer: pode apanhar também Espanha e Itália. Mas a The Economist propõe, então, o calote parcial.

VI

Algumas questões precisam ser ressaltadas: primeiro, que a crise não passou. Diferentemente, parece que haverá uma nova onde desse Tsumani. A revista se apressa para que haja algum controle nessa onda, que não seja uma quebradeira ao estilo de 2008. A segunda questão: a FAO, organismo das Nações Unidas para o combate à fome, alerta para o preço dos alimentos no mundo. A que se deve isso? Basicamente, às compras na bolsa de futuros. Compra-se, hoje, toda a próxima safra de feijão. Quem quiser, que pague o preço que o especulador pedir. Esse tipo de desregulação, de permissão para especular com tudo, inclusive o que é mais sagrado – o feijão, o arroz – foi uma das causas da crise de 2008. Em breve publicarei texto específico sobre o mercado de futuros. Mas fica esse registro aqui, parcial, sobre essa questão: o aumento brutal de preços por conta da compra antecipada dessas mercados no mercado futuro, e a ameaça à vida das pessoas: vida, sim – a fome cuja iminência está sendo anunciada pelas Nações Unidas. Terceiro: que, mesmo que venha um calote parcial desses países, haverá duro reflexo nos bancos credores. E os bancos credores são de países da Europa que não estão nessa lista dos possíveis calotes. A crise, portanto, não é só dos mais pobres da Europa.

VII

Então, resgata-se, aqui, a memória de Kirchner, que tão somente fez o que tinha que fazer, à época. Hoje, isso é apregoado pela The Economist como solução para países europeus. Segundo, dá-se o aviso: a crise não passou. E, na crise, mais vale ter feijão e arroz na prateleira, umas galinhas poedeiras e uma vaca leiteira na chácara do que ter papéis de especulação na mão. Na hora do desabastecimento, ninguém come papel. Come arroz, feijão, ovo, leite.

VIII

Daí, também, a lembrança: é preciso apostar no mercado interno, reforçar o mercado interno, produzir para o mercado interno, garantir o financiamento, o acesso ao crédito. É preciso ter um mercado interno bem desenvolvido para que a dependência do mercado externo, das exportações, seja minimizada.

IX

O curioso é ver que, na grande imprensa brasileira, esse tema está em absoluto segundo plano. A crise externa vem sendo pouco mencionada e, pior, pouco esmiuçada. As matérias são superficiais, quase levianas. Há uma crença do baronato que, ao se falar da crise mundial, a popularidade de Lula cresceria ainda mais, mesmo fora do governo. Então, sonega-se uma discussão importante para a quel nós, cidadãos, deveríamos estar preparados. E sonega-se por opção política.

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jan 16 2011

DAS EDIÇÕES ESPECIAIS DOS SÁBADOS

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Para quem passa no blog quase ao acaso, ou para quem não viu a explicação anterior.  Aos sábados, o blog publica poesia. Uma, talvez mais, o suficiente para provocar quem está lendo a contribuir com a sua nos comentários.

É que durante a semana tratamos, de regra, de temas áridos: ou questões que dizem respeito ao Judiciário, a eventual julgamento ou precedente, alguma reflexão sobre a máquina judiciária, ou temas da conjuntura, particularmente políticos. Ou seja, são temas pesados. E ficar apenas nos temas pesados nos desumaniza. É como se o tempo todo provocássemos o mau humor das pessoas.

Daí a idéia de, no sábado, publicar algo mais leve, que humanize, que permita aflorar a sensibilidade que, até mesmo por proteção, frequentemente deixamos escondida.

Daí a iniciativa. Daí, também, o agradecimento a quem já provocava a iniciativa postando temas que nos humanizam, que nos tiram da aridez. Essas pessoas – digo “esse amigos” – estão dando contribuições com poemas e reflexões que trazem para essa edição dos sábados. Então, a esses amigos meu agradecimento e meu abraço.

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jan 15 2011

BALADA PARA MARIA

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Balada para Maria

          Vinicius de Moraes 

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Não sei o que me angustia

Tardiamente; em meu peito

Vive dormindo perfeito

O sono desta agonia…

Saudades tuas, Maria?

Na volúpia de uma flora

Úmida, pecaminosa      

Nasceu a primeira rosa

Fria…

Perdi o prazer da hora.

Mas se num momento cresce

O sangue, e me engrossa a veia

Maria, que coisa feia!

Todo o meu corpo estremece…

E dos colmos altos, ricos

Em resinas odorantes

Pressinto o coito dos micos

E o amor das cobras possantes.

No mundo há tantos amantes…

Maria…

Cantar-te-ei brasileiro:

Maria, sou teu escravo!

A rosa é a mulher do cravo…

Dá-me o beijo derradeiro?

— Cobrir-te-ei da pomada

Do pólen das flores puras

E te fecundarei deitada

Num chão de frutas maduras

Maria…e morangos, quantos!

E tu que adoras morango!

Dormirás sobre agapantos…

— Fingirei de orangotango!

Não queres mesmo, Maria?

No lombo morno dos gatos,

Aprendi muita carícia…

Para fazer-te a delícia

Só terei gestos exatos.

E não bastasse, Maria…

E morro nessas montanhas

Entre as imagens castanhas

Da tua melancolia…

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jan 15 2011

AJUDA RIO

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O BB disponibilizou três contas para arrecadar auxílio para as vítimas da tragédia no Rio de Janeiro. A situação, conforme todos vimos, é gravíssima, e qualquer ajuda, por menor que seja, é bem vinda. Boa parte das cidades, aí incluídas as casas, serão reconstruídas a partir do nada. Daí a necessidade de intensa solidariedade por parte de todos nós.

Banco do Brasil

Nova Friburgo

Agência 335-2 conta-corrente 120.000-3
Teresópolis

0741-2 agência 110.000-9

Petrópolis

0080-9 agência 76.000-5

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jan 15 2011

OS 24 MILHÕES QUE FORAM PARA A FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO

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O blog do jornalista Luiz Carlos Azenha publica matéria do ex-governador do Rio, Garotinho, sobre a destinação de 24 milhões de reais para a Fundação Roberto Marinho. Eis aí outra coisa que não entendo: se a Fundação é privada, por que a destinação de dinheiro público? É fácil entrar só com o nome e deixar que o dinheiro venha do Estado. Segue o atalho – http://www.blogdogarotinho.com.br/MostraFoto.aspx?nome=20110115_fecamglobo.jpg

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