Archive for março, 2011

mar 31 2011

COMENDAS, ORDENS, MEDALHAS

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O informativo do STJ,  de hoje, divulga que Presidente e ministros do STJ receberam a Ordem do Mérito Judiciário Militar.

Com todo o respeito, e frisando que essas autoridades merecem ser homenageadas, mas é preciso dar fim a esse tipo de situação onde um grupo de servidores públicos concede honrarias com dinheiro público a outro grupo de servidores públicos. A homenagem finda por ser meramente corporativa.

Essa política de comendas e ordens e medalhas, e toda essa parafernália , é resíduo da monarquia. Essas concessões de títulos e honrarias têm servido apenas para encurtar o expediente do Judiciário, no exato momento em que é anunciado que os tribunais acumularam, no ano passado, 1 milhão de processos a mais sem julgamento.

Um órgão do Judiciário homenageando ao outro é auto-elogio.

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mar 29 2011

PARA JOSÉ ALENCAR

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POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

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mar 29 2011

SENADORA ANA AMÉLIA FAZ APELO POR JULGAMENTO

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Enviado por: Macedo

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Do Site da Senadora Ana Amélia Lemos:
http://www.anaamelialemos.com.br/

Senadora faz apelo por agilidade no julgamento do caso Aerus-Varig
28/03/2011

A senadora Ana Amélia (PP/RS) fez um apelo ao Supremo Tribunal Federal para que julgue o mais rápido possível o Processo de Defasagem Tarifária para a companhia Varig. O pedido foi feito durante pronunciamento na tarde desta segunda-feira (28), na tribuna do plenário.

A situação que envolve cerca de dez mil ex-funcionários da companhia completa cinco anos de impasse no próximo dia 12.

- Já são mais de 500 trabalhadores da Varig que faleceram sem verem a solução resolvida nestes quase cinco anos, disse a senadora, ao citar a carta enviada a ela pelo comissário aposentado, José Paulo de Resende, de Itaipu-RJ.

Ana Amélia aproveitou para relembrar a boa notícia transmitida no último dia 23 pelo presidente estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS), de que a entidade estará somando esforços no caso dos aeronautas e aeroviários no Congresso Nacional.

- Cada vez que eu embarco em um voo da Gol ou da própria TAM, egressos da Varig que contribuíram com o fundo de pensão me perguntam se essa matéria será julgada ou se o Congresso fará alguma coisa para resolver esse problema. Estaremos sempre aqui fazendo sempre essa cobrança, garantiu.

Veja o vídeo do pronunciamento clicando no link abaixo.
Clique aqui

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mar 29 2011

A DÍVIDA RECONHECIDA E A CHANTAGEM

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O Banco da Amazônia confessa dever à CAPAF um valor próximo a 850 milhões. Em seu balanço, há uma provisão de 368 milhões já devidamente contabilizada, e que diz respeito a responsabilidades frente a CAPAF.

II

No entanto, não pretende pagar ao plano credor, o Plano Capaf. Pretende, em verdade, aportar esses recursos um novo plano. Esse novo plano recebeu o nome, curiosamente, de “Plano Saldado”. Fosse qual fosse o significado dessa expressão em planos de benefícios. Foi criado um novo plano, e o novo plano recebeu o nome de “saldado”. Evidente que aí já há algo errado. Saldamento de um plano é uma coisa; apelidar um novo plano de “saldado” é outra coisa.

III

E aí veio a ameaça final: quem não trocar de plano, não come. O Basa aportaria recursos apenas novo plano, que modifica as regras de reajustamento da aposentadoria. Não sei de outra palavra na língua portuguesa que não “chantagem” para definir esse tipo de coisa: ou abre mão de direitos, ou não vai ter o que comer, não vai comprar remédios, não vai pagar aluguel.

IV

Isso você pode fazer com o seu cachorro: dar ou não dar ração. Você tem esse comando. Fazer isso com gente, com gente idosa, já aposentada, é inqualificável, é absurdo. E foi isso mesmo que o governo do PT fez, por meio da direção do BASA, que é um banco federal, por ele nomeada e por meio da direção da Capaf nomeada pelo PT.

IV

Será que o PMDB teria tamanha insensibilidade, tamanho desprezo pelas leis? Fico pensando nisso a propósito dessa aliança formada. E mais: a Presidenta da República sabe disso, que milhares de velhos ficaram sem aposentadoria e sem pensão no mês de fevereiro porque estavam sendo chantageados para abrir mão do seu plano de benefícios, estavam sendo tratados como cachorros?

V

Esse aviltamento, essa indignidade, são impressionantes. É uma falta de noção da lei, e é também uma falta de caráter dos dirigentes do BASA que condicionaram os repasses à troca de plano de benefícios. Plano novo, esse, a propósito, elaborado pela Deloitte – aquela que “assessorou” a Caixa Federal na compra da metade  do Banco Panamericano antes de ser descoberta a fraude bilionária.

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mar 28 2011

DECISÃO JUDICIAL OBRIGA BASA A PAGAR APOSENTADORIAS

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Há pouco, a Juíza do Trabalho da 8 Vara de Belém (PA), Dra. Maria Edilene de Oliveira Franco, concedeu antecipação dos efeitos da tutela jurisdicional em ação civil pública.
A Capaf, fundo de pensão dos empregados do BASA, não pagou, no presente mês, aposentadorias e pensões, ao argumento de completa falta de recursos.
Sou o patrono da ação, representando a AABA – Associação dos Aposentados do BASA.
Veja, abaixo, a integra da decisão.
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Decisão
Trata-se de pedido de reconsideração do despacho que indeferiu a tutela antecipada, por não considerar presentes os requisitos ensejadores da medida naquele momento.
 
Neste momento processual, a parte autora acosta o documento de fls. 929, que se trata de COMUNICADO da CAPAF em 22.03.2011, posterior ao ajuizamento, onde consta a suposta razão do seu inadimplemento.
 
A questão muda.
 
O art. 273 do Código de Processo Civil prevê a necessidade de existência de prova inequívoca, a verossimilhança das alegações, fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação, e reversibilidade da tutela, para que possa ser concedida a antecipação pretendida.
 
A prova inequívoca, que demonstra a verossimilhança das alegações do autor, materializa-se nos autos com a comunicação de fl. 929 e a inadimplência já ocorrida.
 
O fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação resta
induvidoso, pois vários aposentados
 
O fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação resta induvidoso, pois vários aposentados e pensionistas encontram-se ameaçados na sua subsistência e desamparados já em idade avançada, quando mais precisam de recursos para adquirir inclusive de medicamentos para manutenção de suas vidas.
 
Trata-se de caso típico que demonstra a utilidade da tutela de urgência, uma vez que o caráter alimentar da verba inadimplida toma feição ainda mais prioritária em razão da idade avançada dos beneficiados.
 
Diante da responsabilidade solidária do BASA, por ser instituição patrocinadora da CAPAF, situação amplamente reconhecida em diversos julgados por esta Justiça Especializada e, levando em consideração, o caráter de subsistência da verba inadimplida, não vislumbro impedimento legal para que este responda por tais benefícios neste momento de urgência.
 
Isto posto, presentes os requisitos autorizadores da antecipação de tutela, conforme art. 273 do CPC, determino que o BASA proceda em 48 horas o pagamento de todos os aposentados e pensionistas referente ao Plano de Benefícios Definidos da CAPAF, relativos à folha de março de 2011, sob pena de pagamento de multa diária de R$-1.000,00 por atraso, que tiver dado causa, e por assistido, até o limite de R$-500.000,00.
 
Dê-se ciência do inteiro teor deste despacho às partes.

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mar 26 2011

“PAREM AGORA”

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                                                 Ouranis

Parem agora de tocar o aviso de perigo,

calem o grito histérico, lamentoso da sirene,

e deixem o leme confiado às mãos da tempestade;

o mais terrível naufrágio seria nos salvamos!

Quê? Novamente voltar a Ítaca com seu tédio,

aos pensamentos baratos, às pobres alegrias,

à fiel companheira que como aranha vai tecendo

o seu fio amoroso em derredor de nossas vidas?

Novamente saber como será cada amanhã,

não sentir o acicate de nenhum desejo ardente,

ver novamente nossos sonhos como frutos pecos

sem sol murcharem e caírem podres sobre a terra?

Pois já que nos faltou audácia (e há de faltar-nos sempre)

de sozinhos abandonar a trilha estreita e plana

para, homens livres em meio ao amanhecer do mundo,

ir pelas largas estradas, as estradas ignotas,

palmilhando o chão à frente com leveza de pássaro;

as almas a tremulas como folhagem na brisa,

não percamos ao menos a ocasião de ser agora

o brinquedo das ondas bravias, aonde quer

que nos levem. Tentáculos, poderão arrastar-nos

as ondas para as escuras profundezas do mar,

mas também num de seus arremessos, erguer-nos tão

alto – que com nossa fronte tocaremos os astros!

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mar 22 2011

JIRAU

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“Companheiros velhos de guerra” é um documentário a respeito da construção de Brasília. Um dos episódios relatados é a revolta de operários na Vila Planalto. A Vila Planalto é um lugar pitoresco de Brasília, digamos acima da cabine do avião, atrás do Palácio do Planalto. É um acampamento que acabou ficando, transformado em bairro.

II

As condições de trabalho, à época, geraram uma revolta dos operários. Dentre outros pontos, denúncia de comida podre nos refeitórios. E houve enfrentamento pesado, inclusive mortes e denúncia de chacina.

III

Essa revolta de Jirau está muito mal contada. A massa de trabalhadores não é ensandecida a ponto de jogar tudo para cima e partir, simplesmente, para a revolta caso algo muito grave não esteja ocorrendo. Há denúncias de dívidas de trabalhadores relativas a compra de medicamentos. Ou seja, valores que são descontados em folha de pagamento e que, não raro, configuram trabalho escravo: no fim do mês, o trabalhador deve o seu salário é obrigado a continuar trabalhando para pagar suas “dívidas” que nunca terminam.

IV

O caso é sério, houve uma verdadeira explosão popular. O Ministério Público do Trabalho agiu rapidamente. Também o Presidente do TST ao contatar o judiciário trabalhista local e sugerir atuação de emergência, com a criação de Vara do Trabalho itinerante para resolver o problema.

V

Ou seja, é necessário esse registro da atuação pronta, imediata, tanto do Ministério Público do Trabalho quanto do Judiciário Trabalhista. É uma situação absolutamente única: a primeira reação parte do Ministério Público, seguida imediatamente pelo Poder Judiciário. Notável, elogiável, digna de registro. Ainda é preciso esclarecer o que efetivamente aconteceu por lá, que tipo de aviltamento, de humilhação levou à revolta.

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mar 20 2011

O RISCO DA TAL REFORMA POLÍTICA

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Está em curso, perigosamente, a dita reforma política. É um momento de risco. Há a proposta de implantação do voto distrital.

II

Moro em Brasília, mais especificamente no lago sul. Qual a minha afinidade com os moradores das quadras próximas para que componhamos um distrito? Absolutamente nenhuma. O voto distrital é transformar o que é político em meramente geográfico. Não se vota mais por afinidade política, por entender que determinado candidato tem maior afinidade com temas que defendemos. Vota-se em alguém do próprio distrito, ou seja, vota-se no vizinho.

III
O voto distrital é algo assemelhado a um vereador federal. Às vezes se vê isso, hoje, em campanhas: o sujeito achar que prometer praças é papel do candidato a deputado federal. Não há conhecimento sequer do papel, da função, embora o aviltamento da função política também leve a isso: a rigor, o sonho de qualquer parlamentar, hoje, não é o de aprovar um projeto de lei. É ser relator de uma medida provisória, onde lhe será garantida a mídia e algumas entrevistas sobre o tema. Estamos vivendo o risco de ver implantado o voto distrital ou algo parecido, se não pior.

IV

Tenho minha visão sobre previdência, sobre política econômica, sobre o papel do Estado, sobre o subsolo nacional, sobre a defesa do setor produtivo, sobre previdência e saúde. Voto, portanto, de acordo com essas minhas preocupações e com minhas convicções. Como compatibilizar isso com o voto distrital? Como escolher um vizinho simplesmente pelo fato de ser vizinho? É o aviltamento da condição política, é a transformação, repito, do político em geográfico.

V

Nosso sistema não é ruim. A rigor, votamos primeiro para o partido e, a seguir, para o candidato. Ou melhor, nosso voto é computado, primeiro, para o partido; e, após, para o nosso candidato. Essa é a regra, e pode ser uma regra boa. É preciso que a lei partidária garanta a ampla democracia, garanta os plenos direitos e a vida orgânica dos filiados. Garanta, inclusive, a realização de prévias para escolha dos candidatos majoritários. Acima de tudo, que garanta o financiamento público de campanha.

VI

Nosso modelo não é ruim. O que nos falta é educação política, é tradição política, é mais exercício da política. E não diz respeito, apenas, à camada mais pobre, mais iletrada da população. Nas últimas eleições, cheguei a comentar, aqui, sobre a declaração de voto de várias pessoas em alguém muito conhecido, tão somente porque via a pessoa todos os dias na televisão. E isso de gente que se supõe com algum estudo. Cheguei a perguntar: essa pessoa está afinada com seus pensamentos relativos à área econômica, à democracia, à distribuição de renda, à educação? E a resposta foi que sequer conhecia as propostas.  No nosso caso, o problema não está nessa forma de organização do voto proporcional. É absolutamente justo, creio até que necessário, que o nosso voto no candidato conte, primeiro, para o partido.

VII

Os políticos estão estudando uma reforma politica em causa própria. A rigor, é um tema que deveria nascer da sociedade e, aí sim, ser levado ao parlamento. O parlamento que aí está é fruto deste sistema, desses vícios. Dificilmente conseguirá propor qualquer coisa que não seja tão somente o benefício próprio, a facilitação da própria reeleição. É, como já se disse dos bancos, tema importante demais para ficar nas mãos apenas dos políticos.

VIII

Então, é preciso ficar atento a isso. É preciso, cada vez mais, ficar atento ao financiamento das campanhas, acabar com o financiamento privado. Suponha  que nas eleições passadas você tenha contribuído com, digamos, suados 4 mil reais para um candidato. Na hora de votar um projeto de seu interesse – por exemplo, na área de previdência complementar – ele vota contra a sua opinião. Ora, você vai voltar a contribuir para esse candidato? Duvido. Então como é que tem gente que espera que o financiado vote contra os bancos, ou contra empreiteiras, ou contra as empresas de transgênico, ou contra multinacionais, ou contra a indústria farmacêutica? Quem paga, manda. E é por isso que o financiamento deve ser público, e não a partir dos interesses das grandes corporações. Chega de ingenuidade nessa questão: as eleições brasileiras estão dominadas pelos grandes financiadores, e a composição do congresso representa isso: o poderio dos financiadores, não necessariamente a representação do povo.

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mar 20 2011

O PROGRESSISTA QUE A DIREITA GOSTA

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O governo Obama é uma fraude. Foi eleito sobre propostas avançadas, mas passou a perder popularidade, cadeiras no congresso, e passou a fazer um governo autorizado pelos republicanos. Ou seja, só faz o que for autorizado. Daí o recuo, a impossibilidade de tratar da grande do sistema financeiro e imobiliário norte-americano. Os executivos responsáveis pela quebradeira – os que tomavam atitudes temerárias para engordar seus bônus – continuaram engordando seus bônus. E essa conta foi para o povo norte-americano.

II

O plano universal de saúde, por lá, ameaça naufragar. Parte do Judiciário de lá entende que a nova lei é inconstitucional. Então, cada vez mais para o “corner”, sobra à Obama fazer a política da direita. Ou, como dizia o velho Brizola a propósito do PT, “essa é a esquerda que a direita gosta”.

III

Mesmo assim não há tréguas. A direita norte-americana joga pesadíssimo, particularmente por meio do canal de televisão Fox, o mesmo que declarou a vitória frauda de Bush no primeiro mandato. E os comentaristas políticos fazem uma confusão misturando suposta tendência de esquerda de Obama ao tempo que o acusam de nazista, e além de tudo também de muçulmano. Ou seja, é um vale tudo onde as acusações contraditórias, e que deveriam se anular reciprocamente, só agravam a situação.

IV

Obama recou. Seu governo é pífio. Até mesmo a base de tortura de Guantanamo continua ativa. Até mesmo suas promessas na área de direitos humanos afundaram. Ou seja, é a esquerda que a direita gosta: apanha, leva a culpa, e, acuado, somente consegue fazer a política da direita norte-americana, a direita belicista ligada tanto à energia suja quanto à indústria armamentista. É a direita da pena de morte.

V

Agora, na crise árabe, com a iniciativa espontânea dos povos daqueles países, os EUA, França e Reino Unido tentam, de qualquer forma, demonstrar algum de liderança. Sobrou para a Líbia. Ora, se a questão é implantar democracia e proteger população civil, então por que não derrubar a monarquia absolutista da Arábia Saudita? Na verdade, o que se vê é o surgimento de uma nova guerra.

VI

Há, sem dúvida, um componente racista na facilidade com que os EUA e Europa têm de bombardear árabes. São diferentes dos ocidentais, assim como os japoneses de Hiroshima e Nagasaki. Essa diferença, aparentemente, autoriza que sejam bombardeados e seus países transformados em infernos. O que se vê  agora, na Líbia, é mais uma vez isso: as pólvoras velhas iriam simplesmente para o lixo, assim como as espoletas, assim como as armas químicas. Surge, então, um país árabe sobre o qual é possível, a pretexto de proteção, despejar essa munição velha e mandar fazer novas armas. E é isso o que está sendo feito.

VII

A vinda de Obama faz parte desse espetáculo midiático. Uma política de direita, um discurso humanista meramente remanescente, a prisão do sistema financeiro. Dali Obama não escapa, e continuará tendo que fazer gracinhas até o momento da reeleição. Lá, então, tentar seduzir com seu sorriso, com a política progressista que não fez, com os direitos humanos que não defendeu e não restabeleceu.  Enquanto isso, bomba nos países árabes e proteção para a ditadura saudita.

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mar 19 2011

“O MITO”

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“O MITO”

                              Carlos Drummond de Andrade

Sequer conheço Fulana,

vejo Fulana tão curto,

Fulana jamais me vê,

mas como eu amo Fulana.

Amarei mesmo Fulana?

ou é ilusão de sexo?

Talvez a linha do busto,

da perna, talvez do ombro.

Amo Fulana tão forte,

amo Fulana tão dor,

que todo me despedaço

e choro, menino, choro.

Mas Fulana vai se rindo…

Vejam Fulana dançando.

No esporte ela está sozinha.

No bar, quão acompanhada.

E Fulana diz mistérios,

diz marxismo, rimmel, gás.

Fulana me bombardeia,

no entanto sequer me vê.

E sequer nos compreendemos.

É dama de alta fidúcia,

tem latifúndios, iates,

sustenta cinco mil pobres.

Menos eu, que de orgulhoso

me basto pensando nela.       

Pensando com unha, plasma,

fúria, gilete, desânimo.

Amor tão disparatado.

Desbaratado é que é…

Nunca a sentei no meu colo

nem vi pela fechadura.

Mas eu sei quanto me custa

manter esse gelo digno,

essa indiferença gaia

e não gritar: Vem, Fulana!

Como deixar de invadir

sua casa de mil fechos

e sua veste arrancando

mostrá-la depois ao povo

tal como é ou deve ser:

branca, intata, neutra, rara,

feita de pedra translúcida,

de ausência e ruivos ornatos.

Mas como será Fulana,

digamos, no seu banheiro?

Só de pensar em seu corpo

o meu se punge… Pois sim.

Porque preciso do corpo

para mendigar Fulana,

rogar-lhe que pise em mim.

Que me maltrate… Assim não.

Mas Fulana será gente?

Estará somente em ópera?

Será figura de livro?

Será bicho? Saberei?

Não saberei! Só pegando,

pedindo: Dona, desculpe…

O seu vestido esconde algo?

tem coxas reais? cintura?

Fulana às vezes existe

demais: até me apavora.

Vou sozinho pela rua,

eis que Fulana me roça.

Olho: não tem mais Fulana.

Povo se rindo de mim.

(Na curva do seu sapato

o calcanhar rosa e puro.)

E eu insonte, pervagando,

em ruas de peixe e lágrima.

Aos operários: A vistes?

Não, dizem os operários.

Aos boiadeiros: A vistes?

Dizem não os boiadeiros.

Acaso a vistes, doutores?

Mas eles respondem: não.

Pois é possível? pergunto

aos jornais: todos calados.

Não sabemos se Fulana

passou. De nada sabemos.

E são onze horas da noite,

são onze rodas de chope,

onze vezes dei a volta

de minha sede: e Fulana

talvez dance no cassino

ou, e será mais provável,

talvez beije no Leblon,

talvez se banhe na Cólquida;

talvez se pinte no espelho

do táxi; talvez aplauda

certa peça miserável

num teatro barroco e louco;

talvez cruze a perna e beba,

talvez corte figurinhas,

talvez fume de piteira,

talvez ria, talvez minta.

Esse insuportável risco

de Fulana de mil dentes

(anúncio de dentrifício)

é faca me escavacando.

Me ponho a correr na praia.

Venha o mar! Venham cações!

Que o farol me denuncie!

Que a fortaleza me ataque!

Quero morrer sufocado,

quero das mortes a hedionda,

quero voltar repelido

pela salsugem do largo,

já sem cabeça e sem perna,

à porta do apartamento,

para feder: de propósito,

somente para Fulana.

E Fulana apelará

para os frascos de perfume.

Abre-os todos: mas de todos

eu salto, e ofendo, e sujo.

E Fulana correrá

(nem se cobriu: vai chispando),

talvez se atire lá do alto.

Seu grito é: socorro! e deus.

Mas não quero nada disso.

Para que chatear Fulana?

Pancada na sua nuca

na minha é que vai doer.

E daí não sou criança.

Fulana estuda meu rosto.

Coitado: de raça branca.

Tadinho: tinha gravata.

Já morto, me quererá?

Esconjuro, se é necrófila

Fulana é vida, ama as flores

as artérias e as debêntures.

Sei que jamais me perdoará

matar-me para servi-la.

Fulana quer homens fortes,

couraçados, invasores.

Fulana é toda dinâmica,

tem um motor na barriga.

Suas unhas são elétricas,

seus beijos refrigerados,

desinfetados, gravados

em máquina multilite.

Fulana, como é sadia!

Os enfermos somos nós.

Sou eu, o poeta precário

que fez de Fulana um mito,

nutrindo-me de Petrarca,

Ronsard, Camões e Capim;

que a sei embebida em leite,

carne, tomate, ginástica,

e lhe colo metafísicas,

enigmas, causas primeiras.

Mas, se tentasse construir

outra Fulana que não

essa de burguês sorriso

e de tão burro esplendor?

Mudo-lhe o nome: recorto-lhe

um traje de transparência;

já perde a carência humana;

e bato-a, de tirar sangue.

E lhe dou todas as faces

de meu sonho que especula;

e abolimos a cidade

já sem peso e nitidez.

E vadeamos a ciência,

mar de hipóteses. A lua

fica sendo nosso esquema

de um território mais justo.

E colocamos os dados

de um mundo sem classe e imposto;

e nesse mundo instalamos

os nossos irmãos vingados:

E nessa fase gloriosa,

de contradições extintas,

eu e Fulana, abrasados,

queremos… que mais queremos?

E digo a Fulana: Amiga

afinal nos compreendemos.

Já não sofro, já não brilhas,

mas somos a mesma coisa.

(uma coisa tão diversa

da que pensava que fôssemos.)

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