Archive for abril, 2011

abr 30 2011

“O AMOR”

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“O AMOR”

            Maiakovski

Um dia, quem sabe,

ela, que também gostava de bichos,

apareça

numa alameda do zôo,

sorridente,

tal como agora está

no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela,

que, por certo, hão de ressuscitá-la.

Vosso Trigésimo Século

ultrapassará o exame

de mil nadas,

que dilaceravam o coração.

Então, de todo amor não terminado

seremos pagos

em inumeráveis noites de estrelas.

Ressuscita-me,

nem que seja só porque te esperava

como um poeta,

repelindo o absurdo cotidiano!

Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!

Ressuscita-me!

Quero viver até o fim o que me cabe!

Para que o amor não seja mais escravo

de casamentos,

concupiscência,

salários.

Para que, maldizendo os leitos,

saltando dos coxins,

o amor se vá pelo universo inteiro.

Para que o dia,

que o sofrimento degrada,

não vos seja chorado, mendigado.

E que, ao primeiro apelo:

- Camaradas!

Atenta se volte a terra inteira.

Para viver

livre dos nichos das casas.

Para que doravante

a família seja

o pai,

pelo menos o Universo;

a mãe,

pelo menos a Terra.

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abr 27 2011

É PARA JÁ

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Da Folha de hoje -

_________________________

Ministro confirma mudanças na regra de pensões por morte

ANA CAROLINA OLIVEIRA
DE BRASÍLIA

O ministro Garibaldi Alves (Previdência) confirmou nesta quarta-feira que o governo estuda limitar os critérios de concessão de pensões por morte no Brasil.

Governo discute norma para cortar pensões por morte
Previdência Social registra deficit de R$ 3,13 bi em março

No domingo, a Folha antecipou que o ministério analisa um conjunto de normas para disciplinar a concessão do beneficio.

Segundo Garibaldi, atualmente não há regras para o recebimento de pensão por morte, o que pode causar problemas no futuro para a Previdência.

“Não há regras, há uma frouxidão total. Se compararmos essa realidade com a de outros países, não temos critérios, carências e nem constatação de que aquela pessoa realmente está merecendo aquela pensão. Se não corrigimos isso, podemos ter problemas maiores no futuro”, afirmou o ministro.

Segundo a reportagem, o governo estuda uma proposta que prevê ao menos cinco regras: impor período mínimo de contribuição; obrigar o dependente a provar que não pode se sustentar sozinho; definir limite de tempo para que viúvas jovens recebam os valores; proibir o acúmulo da pensão com outro benefício; e limitar a liberação da pensão integral para casos específicos.

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abr 26 2011

NO GOVERNO DAS MULHERES, AS VIÚVAS É QUE SÃO GOLPISTAS?

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A notícia é do fim de semana, mas indica que vem bomba por aí. O ataque, agora, é às pensões pagas pelo INSS. Na carona, claro, virão as pensões pagas pela previdência complementar.

II

 Segundo a notícia absolutamente tendenciosa divulgada, o grande problema, hoje, do INSS é o pagamento de pensões às viúvas. Para ilustrar o que seria o problema, é citado o caso do falecimento do marido um mês após o casamento, e isso já teria deixo pensão para a viúva. Logo, isso é imoral; logo, todas as pensões são imorais. Foi esse o raciocínio vendido pelo governo e prazerosamente comprado pela imprensa.

III

O raciocínio é torpe, e não poderia deixar de ser diferente quando se trata de ataque a direitos previdenciário. As pensões fazem parte dos chamados “benefícios de risco”, assim como a aposentadoria por invalidez, embora essa definição, segundo nos ensina o professor Clóvis Luís Marcolin, não seja exata: a rigor, todos os benefícios previdenciários são de risco, inclusive a aposentadoria normal, a própria expectativa de vida. Nâo há exatidão e, não havendo, há risco. A atuária é, justamente, a ciência dos riscos.

IV

Voltemos: a pensão é “benefício de risco”, ainda mais essa do exemplo, gerada pelo falecimento do trabalhador quando em atividade, e não quando já está aposentado. E, nesse caso, o raciocínio vale para as outras áreas: ora, pagou o segudo do carro apenas uma semana, e já bateu? A seguradora, então, não deve pagar o sinistro, não é mesmo? E se o trabalhador trabalhou apenas um mês e teve acidente de trabalho, também não deve o INSS pagar aposentadoria por invalidez, não é verdade? O raciocínio é o mesmo.

V

O que há de mais abjeto é pegar uma exceção absoluta, e tentar transformar isso em um escândalo. E, a partir daí, propor uma reforma geral que busque atacar as pensões pagas pelo INSS. O exemplo dado pelo governo é um fato normal, da mesma forma como bater o carro uma semana após fazer o seguro também é um fato normal, previível, atuarialmente mensurável. Estava no período coberto, e pronto. Acabou.

VI

O mais grave e que isso está sendo feito em um governo onde a representação das mulheres nunca foi tão grande. E a proposta é, sim, um ataque às mulheres. Isso já havia acontecido na previdência complementar. No Plano “novo” da Petros – na verdade, um plano velhíssimo, anterior à noção de proteção social – há a “opção”: ao chegar o momento da aposentadoria, o trabalhador pode escolher se deixará ou não pensão para a viúva e seus futuros órfãos. É um retrocesso inimaginável, uma desumanidade impressionante. O que o Ministério Público diz disso? É possível ao pai optar se deixará ou não pensão para o futuro órfão? E é, então, possível, deixar a futura viúva ao completo desamparo, sem a sua concordância ou, mesmo, na sua completa ignorância? É um absurdo, e está lá no “novo” plano tristemente oferecido aos novos participantes da Fundação Petros.

VII

Agora, vem o governo deixando claro que o ataque é às viúvas. Cita um caso corriqueiro, normal, na tentativa de transformar em escândalo. Transforma uma tragédia – a morte do marido no primeiro mês de casamento – em uma tentativa de golpe contra a previdência social. Ou seja, no governo das mulheres, o golpe, agora, é dado pelas viúvas. Não têm mais o direito de chorar seus mortos. Devem, de imediato, se proteger da acusação de golpistas e começar a procurar emprego. É o fim da picada.

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abr 26 2011

UM MINUTINHO, POR FAVOR

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Há poucos dias, em Taguatinga, aqui no DF, um grupo de cerca de dez alunas saiu da escola para linchar uma das colegas. Bateram até que a vítima ficasse desacordada.  Ainda aqui, em Brasília, no Conic – um conjunto central de prédios, ao lado do Conjun to Nacional — um militar que, aparentemente, teria furado a fila do elevador, foi baleado por um advogado que se deu ao trabalho de subir ao seu escritório, pegar o revólver, descer até a garagem e atirar. Aqui em Sobradinho, na disputa por uma vaga de estacionamento, o “perdedor” foi até o supermercado, comprou uma faca, voltou ao estacionamento e enfiou a faca no peito do “vencedor” da disputa pela vaga. Na asa norte, soube de dois senhores, homens por volta dos 60 anos, que saíram no tapa em uma padaria. E em Porto Alegre, há poucos dias, vimos o caso do sujeito que jogou o carro contra um grupo de cicilistas.

II

Há um surto de violência, há uma energia negativa latente, pronta para explodir. E vem explodindo. Há uma irritação crescente – e falo isso por mim. Não que nos falte motivo para a irritação, para o descontentamento, até para a revolta. Mas as coisas estão saindo de controle. Há muita gente de índole boa perdendo o controle, fazendo coisas ruins. Observe. Isso está extremamente preocupante. Daí este texto, esta reflexão.

III

É preciso acalmar a mente. Não significa não mobilizar, não lutar. Ao contrário, é preciso acalmar a mente até para que possamos dar eficácia às reivindicações, às lutas, para que as atitudes não se voltem contra o que queremos defender. É preciso diferenciar o que é travar o bom combate, a luta justa, do que é simplesmente semear o descontrole, ou a violência, que até mesmo desunem e impedem o exercício da cidadania, da pressão e da reivindicação.

IV

Há vários anos tive contato com o pessoal da Meditação Transcendental, criada por Maharishi – que ficou muito conhecido porque foi procurado, à época, pelos Beatles. Maharishi desenvolveu uma técnica de meditação voltada ao homem ocidental. Não temos o preparo, a cultura, a disciplina dos orientais. Daí a necessidade de uma técnica própria, adaptada, voltada ao ocidente.

V

A meditação é, essencialmente, “cessar o fluxo incessante do pensamento”. Não é uma coisa fácil: temos o verdadeiro vício desse fluxo incessante, e temos uma indisciplina em relação a isso. Digo isso lembrando o ditado: “quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Estou, aqui, de forma tosca, tentando ensinar o que efetivamente não sei. Mas é uma tentativa de socializar um pouquinho do que li, do que aprendi a respeito, mas que lamentavelmente não consegui, ainda, incorporar ao meu cotidiano. Meditação é fazer silêncio interior, é criar um verdadeiro “ branco” que faça cessar completamente o pensamento. Daí a necessidade de algo para prender, no primeiro momento, a atenção da mente. Um mantra, por exemplo. Ou, ainda mais fácil, prestar atenção, exclusivamente, na respiração. Só isso. Que nada mais exista, apenas a respiração, apenas prestar a atenção no inspirar e no expirar. Duas vezes por dia, vinte minutos.

VI

Deepak Chopra, o médico especialista em medicina ayurvédica que mora, hoje, nos EUA, longamente fala sobre os benefícios da meditação. E conta um episódio: uma experiência, levando-se, se não me engano, dois mil meditadores para Washington para meditar duas vezes por dia, durante vinte minutos  cada, por uma semana. Só isso. Durante essa semana, os índices de criminalidade caíram de forma impressionante, menores ainda do que ocorre nas grandes nevadas, quando a cidade praticamente para e todos ficam dentro de casa. A conclusão: a meditação não é apenas um processo interior. É como se um “campo de harmonia” fosse criado, e envolvesse de forma acolhedora os que estão em volta. E aí há uma paz envolvente, crescente.

VII

É preciso espalhar isso, disseminar isso: a técnica de meditação. Conheço essas duas, que comentei: uma, que envolve recitar um mantra; a outra, que envolve prestar a atenção no inspirar e no expirar, exclusivamente, duas vezes por dia, vinte minutos cada. As duas principiam por fechar os olhos, sentado, respirando profunda e confortavelmente durante um ou dois minutos iniciais, como um primeiro relaxamento. A seguir, o mantra ou o prestar a atenção exclusivamente na respiração. Rajneesh – que, depois de sua morte, passou a se chamar Osho – também ensina algumas técnicas.

VIII

Creio que é necessário um movimento nesse sentido, uma adesão a essa tentativa de acalmar a mente, de buscar a paz duas vezes por dia. Ainda mais: creio que é preciso implantar isso nos locais de trabalho, com a mesma ênfase com que se discutiu, há alguns anos, a ginástica laboral. Não raro, os locais de trabalho se tornam locais de sofrimento, frequentemente desumanos. É preciso humanizar, e a meditação pode ser um bom começo para isso. Também nas escolas, preferencialmente a partir de dicas de quem tem a admiração das crianças, dos jovens, e pratica a meditação.

IX

Este texto é só uma introdução, uma tentativa de compartilhar essa angústia e lançar esse debate. Gostaria que você comentasse sua experiência com a meditação pura, com o silêncio interior. Não pretendo abrir espaço, aqui, para a religião. Não é por falta de sentimento religioso, mas para que, nesse momento, os olhos se voltem só para a paz. Frequentemente a discussão sobre religião acaba trazendo uma pitada ou outra de intolerância: há poucos dias, vimos a queima do Al-Corão promovido por uma autoridade religiosa. Não raro, vê-se uma dose de preconceito contra religiões de origem africana. Então, por enquanto, melhor falar no bem e na paz que, suponho, as religiões já estariam até melhor contempladas do que em um debate teológico. A idéia, aqui,  é o silêncio interior, a paz interior.

X

Então, seguem as perguntas: seria possível fazermos círculos de meditação, reais e virtuais? Seria possível identificarmos alguns instrutores sérios, que dominem essas técnicas relativamente fáceis, e que não envolvem religião (cada um continuará cultivando a sua), para que possam dar uma aulinha sobre o tema, ensinar suas técnicas? Seria possível fazer grupos para, uma vez por semana, meditar coletivamente, exclusivamente para manter o hábito, a constância? É possível criar esses espaços coletivos?

XI

Acho que o momento é grave, sério, que pessoas de bem estão perdendo o controle, que nós mesmos corremos esse risco. E que é possível fazer alguma coisa de forma aberta, tranquila, sem pretensão de santidade ou de demagogia, mas simplesmente para que acalmemos, todos, nossos corações e possamos travar nossas justas batalhas de forma altiva, generosa, até mesmo ensinando um pouco de doçura a quem cultiva o amargor na vida e no exerc ício de seus temporários cargos.

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abr 25 2011

SAI BABA

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Há algum tempo soube da existência de Sai Baba. Quanto mais lia a respeito, mais admirava aquele homem santo, dedicado a promover o bem, a paz, a cura. Sai Baba faleceu no último fim de semana. Eu não sabia que ele estava doente. Fica um vazio.

Era um homem absolutamente iluminado, permanentemente em contato com universos que ignoramos por completo. Das mãos de Sai Baba se materializava um pó, que servia de base para medicamentos, para a cura, o que, para nós, é quase inacreditável.

Que pena essa partida, e que linda essa existência dedicada a fazer o bem.

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abr 24 2011

“A FLOR E A NÁUSEA”

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“A FLOR E A NÁUSEA”

  Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

(Carlos Drummond de Andrade)

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abr 16 2011

“EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS”

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EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS

                  Carlos Drummond de Andrade

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

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abr 12 2011

O PODER DOS DERIVATIVOS E A FOME

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Há muito dinheiro circulando no mundo.  Antigamente, os EUA emitiam dólares de acordo com o ouro que tinham depositado no Fort Knox. Era o padrão-ouro: cada dólar estava lastreado em ouro depositado.  Isso foi estabelecido, ainda em 1944, pelo chamado “acordo de Breton Woods”: o dólar passava a ser a moeda de troca mundial, mas era converísvel em ouro.  Mais de vinte anos depois, no final da década de 60, os EUA estavam em guerra com o Vietnam. E veio o choque do petróleo. Em 15.08.1971, Nixon simplesmente anunciou o abandono do lastro em ouro.  Assumiu publicamente o que já era realidade: não havia suficiente ouro para lastrear os dólares emitidos. 

II

Em outras palavras, Nixon anunciou: “nosso dólar, que representava uma certa quantidade de ouro, a partir de agora é mero papel pintado que mandamos imprimir em nossa casa da moeda”. E o dólar passou a não ter mais lastro. Não se sabe, hoje, qual a quantidade de dólar circulando no mundo. Sabe-se que não se pode entrar nos EUA levando muitos dólares: foi o que originou a prisão do casal de “bispos” brasileiros por lá. É curioso: há tanto dólar no mundo, que entrar nos EUA com mais de 50 mil, creio, dá prisão. Repatriar esses dólares causaria desvalorização da moeda, evidenciaria uma inflação, uma perda de valor da moeda em decorrência do excesso na sua emissão.  Ficam, portanto, circulando no mundo. E sem representar ouro nem qualquer outra coisa.  

III

De qualquer maneira, interessa, tão somente, lembrar que não há mais lastro em ouro. Há uma grande convenção: eu acredito no dólar, você também acredita, e assim segue. Hoje, há uma quantidade enorme de recursos no mundo. É dinheiro inimaginável circulando nos tais “fundos de derivativos”, na pura especulação. São fundos que quebram países, que apostam na quebra de sua moeda e têm força suficiente para bancar a aposta e ganhar. Esse dinheiro circula no mundo com a velocidade com que você aperta a tecla ‘enter’ do seu computador. Agora, está em Londres; neste momento, na Rússia; Brasil; EUA , Gran Cayman. E assim vai. É um dinheiro estéril: se fica 2 minutos em um País, não serviu para nada, a não ser para especular. Se ficar um mês, idem.  Uma enxurrada de, digamos, 20 bilhões de dólares entrando no País não serve para nada se não é destinada ao investimento, mas à especulação durante um dia, ou uma semana, ou um mês.  Só desestabiliza, cria falsos movimentos. É estéril, nada gera.  Na verdade, retira riquezas daqui de dentro quando sai: não saem 20 bi, mas 22 ou 25. O Brasil impôs uma taxação para o ingresso desses capitais, inicialmente em 2% e hoje chega a 6%, o que é uma tentativa de inibir a especulação de curto prazo. A lógica é a de entrar “devendo” 6%: ou seja, é preciso recuperar esses 6 mais o seu lucro, e isso não costuma acontecer de um dia para o outro. Isso não foi o suficiente, no entanto, para elevar a cotação do dólar. É um início, mas só um início.

IV

Pois bem: há muito, muito, muito dinheiro circulando no mundo. E parte significativa disso está no mercado futuro. O plantador de soja resolveu, a partir da cotação, vender a safra que colherá daqui a três meses. O comprador passou a ter um papel que representa essa colheita. Esse comprador especula no mercado: comprou a 30, digamos. Alguém oferece 40 por esse papel, apostando na subida. O touro aposta na subida, ataca de baixo para cima; o urso aposta na descida, ataca de cima para baixo. Daí as estátuas na frente da Bolsa de Nova Iorque.  O que era, originalmente, produção, no momento seguinte vira papel. E no próximo momento virará apenas mais um item em uma carteira de um fundo, exposto à especulação. Pode ser soja, mas também pode ser arroz, ou feijão. O alimento pode ser submetido à mesma lógica: a da especulação. E a FAO, o órgão das nações unidas responsável pelo combate à fome, já anunciou que a especulação está levando à carência de alimentos. Pode faltar comida no mundo porque as safras estão previamente compradas, aguardando a subida de preço. Quando se fala em soja, para nós, ocidentais, lembra apenas alimento para o gado europeu. Mas quando se fala em feijão e arroz, a questão é diferente. 

V

Em 1997, ou seja, 11 anos antes da crise – esses fundos de derivativos movimentavam ao dia – pasme - o equivalente ao PÍB MUNDIAL EM UM ANO.  Em junho de 2008, véspera da crise, esses fundos detinham 683,7 TRILHÕES DE DÓLARES, segundo o Banco de Compensação Internacioanis, o BIS. No ano de 2005, o PIB mundial foi de 55 trilhões de dólares; em 2010 anda pelos 60 trilhões. Ou seja, os derivativos acumulam cerca de 10 PIBs mundiais, ou o que O MUNDO PRODUZ EM 10 ANOS , e movimentam ao dia o equivalente a um PIB mundial.

VI

Há, portanto, cerca de 680 trilhões de dólares girando no mundo  diariamente . E aí compram, por exemplo,  safras inteiras de feijão, de arroz, petróleo no mercado futuro.  Repito: o PIB mundial é de cerca de 55 trilhões de dólares; os fundos de derivativos detém cerca de 680 trilhões de dólares.

VI

Quem manda nesses fundos de derivativos? Executivos cujos bônus anuais são inimagináveis. Seu objetivo, pois, é ganhar o maior bônus possível. É a regra pela qual foram contratados. Atualmente, há fundos que operam por computador: é o computador quem decide se é o minuto de retirar o dinheiro de Hong-Kong e passar tudo para São Paulo, e no momento seguinte remeter para as Bahamas. Não existe, portanto, uma lógica “ética”, ou humana, ou qualquer coisa parecida. O computador faz a conta: se comprar toda a safra de feijão pode dar um bom lucro, é comprada e mantida fora do mercado, para especulação, até que o preço atinja o que foi previamente calculado. Só que feijão é alimento. 

VII

Para onde vão esses fundos, que movimentam em um dia o equivalente ao PIB mundial? Quais os limites para que uma jogada especulativa não leve metade da África à morte pela fome, ou que leve metade do povo brasileiro à falta de alimentos? Esses fundos detêm muito, muito dinheiro. E estão aí praticamente sem regulamentação. Correm de um país para o outro, acabam, na verdade, por desequilibrar o livre mercado em virtude de sua capacidade monopolística. Em outras palavras, atentam até mesmo contra o capitalismo.

VIII

É a ONU, agora, quem alerta que pode faltar alimento no mundo. Não pela falta de produção, mas pela especulação. Especulação automática, feita por computador, ignorando qualquer aspecto ético que envolva isso – deixar o semelhante morrer de fome porque a busca do lucro descomunal exige isso.

IX

O capítalismo não sobrevive com liberdade absoluta de mercados. Ou o mercado é colocado a serviço do ser humano, ou o ser humano é colocado a serviço do mercado. A crise de 2008 – que se prolonga até hoje – mostrou isso, mostrou a face suicida do próprio capitalismo. No mundo, não houve iniciativa até agora no sentido de dar efetiva disciplina a esse tipo de movimentação financeira. Isso, inclusive, porque os donos desses recursos também são grandes financiadores de campanha. Olhe os financiadores do seu candidato: buscarão agradar a você ou a quem depositou recursos imensos em sua conta de campanha? A opinião de quem influenciará mais, a de quem contribuiu para a campanha de forma milionária ou a de quem nada contribuiu?

X

Enfim, temos aí os pontos: a dimensão quase que inimaginável dos fundos de derivativos; o comunicado da FAO de que pode faltar alimento no mundo, fruto da especulação. E, acima de tudo, um nível de concentração econômica que não é mais capitalismo, é outra coisa cujo nome ainda não sabemos.

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abr 11 2011

AUDIÊNCIA PÚBLICA 12.04.

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Amanhã, 12 de abril, audiência pública no Senado sobre a questão Aerus.

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abr 09 2011

A ROSA DE HIROSHIMA

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A ROSA DE HIROSHIMA

                Vinicius de Moraes

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

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