Julgamento precipitado é uma coisa perigosa, e não raro caímos nisso. É fácil tirar uma conclusão apressada das coisas. E isso acontece inclusive com o Juiz, quando tira uma conclusão apressada a respeito de algo. Ou seja, sempre é um risco o julgamento precipitado.
II
Tivemos alguns casos clássicos de como esse tipo de julgamento fica ainda mais perigoso quando é inflado pela imprensa. Houve o famoso caso da Escola Base, em São Paulo, quando os donos foram acusados de abuso das crianças. Foram absolutamente inocentados, mas a imprensa - e, em conseqüência - a opinião pública, já os havia condenado.
III
O dia 19.12.2008 é bastante presente para boa parte dos frequentadores deste blog. Originalmente prevista para o dia 18.12, a votação do Agravo Regimental na SL 127 findou começando só no dia 19.12, último dia de funcionamento dos tribunais antes do recesso do final de ano. Foi o dia em que o Ministro Gilmar Mendes afirmou que, dada a relevância social daquele tipo de tema em discussão, deveria a AGU constituir uma câmara específica para buscar a conciliação. Todos temos isso na memória.
IV
Pois bem: em conversa com senadores, a ex-secretária da receita federal afirmou que tinha se reunido reservadamente com a Ministra Dilma Rousseff naquele dia 1912. Isso circulou pelo Congresso, circulou pelos senadores da oposição. Mas há algumas questões aí.
V
A primeira delas: no dia 19.12 a Ministra Dilma estava em uma reunião do Conselho de Administração da Petrobrás. E a ex-secretária da Receita estava em plena viagem para o Rio Grande do Norte, sua terra natal, de cujo governo foi secretária estadual de tributos, e estado pelo qual o Senador Agripino Maia, do PFL (DEM), foi eleito. O Senador Agripino é aquele que “acusou” Dilma Roussef de ter mentido aos seus torturadores quando tinha 19 anos de idade, foi colocada no pau-de-arara e sexualmente humilhada. Ao final do dia 19.12, a Ministra viajou para Porto Alegre para fazer a cirurgia plástica tão noticiada no início do ano.
VI
Havia vários problemas na versão dada pela ex-Secretária: se houvesse sido sugerido ou proposto a ela que arquivasse sumariamente um procedimento regular, isso seria crime da autoridade que sugeriu. E o funcionário público, a ex-Secretária da Receita, que tem conhecimento de crime, deveria denunciar imediatamente. Se não denunciasse, o que acobertou passaria a ser também criminoso. Daí surge a história de “pedir agilidade”. Pedir agilidade não é crime. Na verdade, deveria ser obrigação.
VII
Mas há mais incongruência aí. A imprensa publica que o Ministro Guido Mantega, o superior imediato da ex-Secretária, pediu à Secretária informações sobre o mesmo tema. Foi informado sobre o andamento, e tão só. Mas essa informação surge agora, sem qualquer suspeita sobre o Ministro Mantega. Efetivamente, tão só cumpriu sua obrigação, pediu notícias sobre uma investigação em andamento, tão só.
VIII
Até a metade de janeiro de 2009, de outra parte, Sarney não era candidato ao Senado. Compareceu ao Palácio do Planalto em cinco oportunidades para dizer que não era candidato. E aí PT e PSDB - sim, os dois juntos - lançaram a candidatura do Senador Tião Viana. PFL e PMDB é que resolveram lançar Sarney, após 20 de janeiro, como candidato de última hora e que acabou vencedor da eleição para Presidente do Senado.
IX
A Ministra Dilma negou o tal encontro privado e afirmou que só esteve reunida com a ex-Secretária em reuniões com mais pessoas, envolvendo várias áreas. A ex-Secretária, que havia dito aos Senadores que a reunião teria ocorrido em 19.12, preferiu dizer que “não se lembrava da data”, embora tivesse ficado no cargo pouquíssimo tempo. Ou seja, nem a sua agenda registrava o tal encontro, nem a agenda da Ministra. Segundo a própria ex-Secretária, só teria se reunido privadamente uma única vez com a Ministra mais poderosa do governo, mas não se lembrava da data, nem por alto. Nem o mês, nem a semana, muito menos o dia. Ou seja, é um fato banal se reunir uma só vez na vida e a sós com a Ministra Chefe da Casa Civil, e ainda ouvir um pedido de “agilidade”.
X
E a tal “agilidade”? Segundo a própria ex-secretária, “não se sentiu pressionada”. E não lembra o turno do dia, nem a semana, nem o mês. Mas lembra o ano, claro, porque foi aquele no qual passou pouco tempo no cargo de secretária.
XI
A Revista Carta Capital desta semana soterra a versão da ex-secretária da Receita. Ouviu senadores de oposição que foram informados da data de 19.12 como da reunião privada, informação passada pela própria denunciante.
XII
Ou seja, a versão não se sustenta. Não houve reunião porque no dia divulgado sequer a ex-secretária estava em Brasília, e a ministra estava em longa reunião do Conselho de Administração da Petrobrás. Na reunião “reservada” que não houve, a Ministra teria pedido tão somente “agilidade”. E a ex-secretária afirmou que não se sentiu pressionada por isso.
XIII
O resto - o fato de o marido da ex-secretária ter sido ministro interino no governo FHC; o fato de o marido da ex-secretária ser réu em ação de improbidade em curso no Supremo, tudo isso é irrelevante. E, de fato, não mereceu grande destaque da imprensa. É irrelevante, mesmo. Sobre o marido da ex-secretária deve haver presunção de inocência.
XIV
Primeiro, divulgada aos senadores da oposição uma data, 19.12. Depois, não lembra da data, nem da semana, nem do mês. E afirma que no encontro que não houve não se sentiu pressionada.
XV
Tirar conclusão precipitada é fácil. Embarcar em campanhas da imprensa é mais fácil ainda. Só que julgamento precipitado é uma coisa muito complicada, e aqui há muita gente que já foi vítima disso e continua sendo. Diga, por exemplo, que aposentado ganha demais e que isso desequilibra contas públicas. Acuse, por exemplo, um aposentado de não cuidar dos seus recursos, de ser imprevidente, de pretender que todo o povo pague por sua imprevidência. Parece ser verossímil, mas uma frase assim pode esconder uma pilha de autorizações ilícitas para que um fundo de aposentadoria fosse desfalcado, pode esconder o compadrio, pode esconder a lesão em massa, a apropriação indébita. E aí basta jogar a culpa nas vítimas, e criar uma discurso de “defesa do interesse público”. É um julgamento precipitado e irresponsável, feito sob medida para manipular, com informações distorcidas e mentirosas. Mas é exatamente a situação da Ministra Dilma: está, sim, sendo vítima de uma campanha irresponsável, com declarações da denunciante milimetricamente pesadas para que ela própria, a denunciante, não seja acusada de crime. E aí não lembra a hora, o turno do dia, o dia, a semana ou o mês. O problema dos julgamentos precipitados é que, admitindo-os, poderemos ser vítimas desse mesmo tipo de manipulação.
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ATUALIZAÇÃO – Extraio da Revista Época, de hoje, domingo. A Época, para quem não lembra, é da Globo -
“O marido de Lina é sócio majoritário na agência Dois A Publicidade. A empresa atua em Natal, onde recentemente venceu licitação para prestar serviços à Secretaria de Comunicação da prefeitura administrada por Miacarla de Souza (PV), aliada de Agripino e responsável por uma das maiores derotas do PT nas eleições municipais. A Dois A divide um contrato anual de R$ 10 milhões, firmado no mês passado, com outras quatro agências. Firmino [marido da ex-secretaria] também é sócio da empresa Impressão Gráfica e Editora, recém-contratada pela prefeitura para editar a publicação “Natal pra você”, dedicada ao turismo. Procurados, nem Lina nem Firmino responderam aos pedidos de entrevista feitos por ÉPOCA.”