ago 25 2010
O PROBLEMA DO DESCRÉDITO DA IMPRENSA
Um dos marcos das eleições de 2010 é o desmascaramento do Datafolha. Uma semana antes de Serra, finalmente, assumir sua candidatura, o Datafolha resolveu dar um pulo nos índices. Não havia nada que justificasse, nem sequer a candidatura assumida. Simplesmente deram um empurrão para que o clima de lançamento fosse melhor.
II
Quando os índices começaram a ficar muito diferentes, restou ao Datafolha sair correndo na frente e gritar “pega ladrão”: acusou os demais institutos, particularmente o Vox Populi, de estar comprometido com o governo. E pediu providências, e houve matérias da Folha nesse sentido. A mentira não se sustentou por muito tempo. Na última rodada, o Datafolha começou a alterar o rumo, a caminhar para aproximar seus números daqueles apurados pelos demais institutos.
III
Ficou essa situação grotesca. Primeiro, largam uma pesquisa esdrúxula; depois, acusam os demais institutos. Depois, colocam o rabo no meio das pernas e resolvem “realinhar” os seus números. Isso, no entanto, não é novidade.
IV
A manipulação de pesquisas se dá para tentar influenciar o povo, criar uma “onda” em relação a uma candidatura. Se colar, ótimo. Se os outros institutos não caminharem no mesmo sentido, a coisa complica. No caso do Datafolha, as eleições atuais apontam para sua definitiva desmoralização.
V
O que chama a atenção é a postura da grande imprensa nestas eleições. Isso porque, é claro, o Datafolha pertence ao grupo Folha de São Paulo. Os jornalões vêm atuando com uma empáfia impressionante, sem contar o Jornal Nacional. O episódio das entrevistas chegou a ser engraçado: a simpatia por Serra, as perguntas sob medida para que se saísse bem. E a postura de hienas contra Dilma exercitada pelo casal apresentador. Há uma raiva incontida no Globo e na Globo, no Estadão, na Folha, na Veja.
VI
E mais: há um golpismo cotidiano, uma tentativa de manipular as notícias, de dar só a metade da notícia e fazer ilações com a outra metade. Há algo de insano nisso quando se trata de uma eleição que, tudo indica, está completamente definida.
VII
Essa é a novidade: com todo o golpismo, a deturpação, a manipulação, os jornalões simplesmente não conseguiram influenciar nestas eleições. Veja tudo o que é cotidianamene levantado: a política do petróleo, a Bolívia, a militância de Dilma. E sempre tentando ridicularizar o Brasil no cenário internacional.
VIII
Essa é a grande questão, o que talvez explique essa raiva crescente. A desmoralização está sendo da imprensa. Não adianta mais publicar seus falsos escândalos – falam do pagamento de uma tapioca com o cartão corporativo, enquanto esquecem como Daniel Dantas “venceu” as privatizações. A rigor, ninguém mais acredita no que sai nos jornalões. E isso pode, sim, ser um problema.
IX
E não há autocrítica. Ao contrário, há foruns onde os bilionários donos de jornais e concessões de televisão saem a bradar “liberade, liberdade”, como se a liberdade de imprensa estivesse ameaçada. Ou seja, o seletíssimo grupo de bilionários se coloca como defensor da liberdade. Ora, são exatamente os velhos bilionários golpistas de 64, agora defendendo o que nunca foi ameaçado. Mas é a sua proteção: clamar pela sua liberdade de mentir, de manipular, de golpear.
X
A imprensa pode ser um dos guardiões da democracia, assim como sindicatos, como organizações populares. Quando, no entanto, a imprensa passa a ser sistematicamente mentirosa, fabricante de escândalos, golpista no que se refere à tentativa, por exemplo, de derrubar o novo marco do petróleo, a população passa a descrer da imprensa. E isso é um problema. A grande imprensa brasileira está construindo um muro de desconfiança em volta de si. Veja o lado ruim disso: há escândalos verdadeiros, sim, que vez por outra são divulgados. E esses escândalos repercutem cada vez menos porque frequentemente há descrédito. O povo simplesmente está aprendendo a desconfiar do que sai no Jornal Nacional e nos jornalões.
XI
De um lado, estas eleições têm essa marca: a imprensa para um lado, o povo para o outro. A imprensa não vem conseguindo conduzir o povo como fez nas eleições de Collor, de FHC. Isso não serviu de lição, no entanto. Quanto mais o povo se afasta, mais a imprensa aumenta a dose de manipulação e de golpismo. E aí se desacredita. O problema é que esse descrédito faz com que o povo duvide de tudo, inclusive do que é corretamente publicado pela imprensa. Será que os índices de Roriz, por exemplo, não refletem isso, esse descrédito do povo na imprensa? Será que o povo está aprendendo a ignorar tudo o que sai na imprensa? Talvez seja isso: o povo aprendeu a desconfiar de tudo o que sai na grande imprensa. E aí, não se separa mais joio de trigo.