Há poucos dias, em Taguatinga, aqui no DF, um grupo de cerca de dez alunas saiu da escola para linchar uma das colegas. Bateram até que a vítima ficasse desacordada. Ainda aqui, em Brasília, no Conic – um conjunto central de prédios, ao lado do Conjun to Nacional — um militar que, aparentemente, teria furado a fila do elevador, foi baleado por um advogado que se deu ao trabalho de subir ao seu escritório, pegar o revólver, descer até a garagem e atirar. Aqui em Sobradinho, na disputa por uma vaga de estacionamento, o “perdedor” foi até o supermercado, comprou uma faca, voltou ao estacionamento e enfiou a faca no peito do “vencedor” da disputa pela vaga. Na asa norte, soube de dois senhores, homens por volta dos 60 anos, que saíram no tapa em uma padaria. E em Porto Alegre, há poucos dias, vimos o caso do sujeito que jogou o carro contra um grupo de cicilistas.
II
Há um surto de violência, há uma energia negativa latente, pronta para explodir. E vem explodindo. Há uma irritação crescente – e falo isso por mim. Não que nos falte motivo para a irritação, para o descontentamento, até para a revolta. Mas as coisas estão saindo de controle. Há muita gente de índole boa perdendo o controle, fazendo coisas ruins. Observe. Isso está extremamente preocupante. Daí este texto, esta reflexão.
III
É preciso acalmar a mente. Não significa não mobilizar, não lutar. Ao contrário, é preciso acalmar a mente até para que possamos dar eficácia às reivindicações, às lutas, para que as atitudes não se voltem contra o que queremos defender. É preciso diferenciar o que é travar o bom combate, a luta justa, do que é simplesmente semear o descontrole, ou a violência, que até mesmo desunem e impedem o exercício da cidadania, da pressão e da reivindicação.
IV
Há vários anos tive contato com o pessoal da Meditação Transcendental, criada por Maharishi – que ficou muito conhecido porque foi procurado, à época, pelos Beatles. Maharishi desenvolveu uma técnica de meditação voltada ao homem ocidental. Não temos o preparo, a cultura, a disciplina dos orientais. Daí a necessidade de uma técnica própria, adaptada, voltada ao ocidente.
V
A meditação é, essencialmente, “cessar o fluxo incessante do pensamento”. Não é uma coisa fácil: temos o verdadeiro vício desse fluxo incessante, e temos uma indisciplina em relação a isso. Digo isso lembrando o ditado: “quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Estou, aqui, de forma tosca, tentando ensinar o que efetivamente não sei. Mas é uma tentativa de socializar um pouquinho do que li, do que aprendi a respeito, mas que lamentavelmente não consegui, ainda, incorporar ao meu cotidiano. Meditação é fazer silêncio interior, é criar um verdadeiro “ branco” que faça cessar completamente o pensamento. Daí a necessidade de algo para prender, no primeiro momento, a atenção da mente. Um mantra, por exemplo. Ou, ainda mais fácil, prestar atenção, exclusivamente, na respiração. Só isso. Que nada mais exista, apenas a respiração, apenas prestar a atenção no inspirar e no expirar. Duas vezes por dia, vinte minutos.
VI
Deepak Chopra, o médico especialista em medicina ayurvédica que mora, hoje, nos EUA, longamente fala sobre os benefícios da meditação. E conta um episódio: uma experiência, levando-se, se não me engano, dois mil meditadores para Washington para meditar duas vezes por dia, durante vinte minutos cada, por uma semana. Só isso. Durante essa semana, os índices de criminalidade caíram de forma impressionante, menores ainda do que ocorre nas grandes nevadas, quando a cidade praticamente para e todos ficam dentro de casa. A conclusão: a meditação não é apenas um processo interior. É como se um “campo de harmonia” fosse criado, e envolvesse de forma acolhedora os que estão em volta. E aí há uma paz envolvente, crescente.
VII
É preciso espalhar isso, disseminar isso: a técnica de meditação. Conheço essas duas, que comentei: uma, que envolve recitar um mantra; a outra, que envolve prestar a atenção no inspirar e no expirar, exclusivamente, duas vezes por dia, vinte minutos cada. As duas principiam por fechar os olhos, sentado, respirando profunda e confortavelmente durante um ou dois minutos iniciais, como um primeiro relaxamento. A seguir, o mantra ou o prestar a atenção exclusivamente na respiração. Rajneesh – que, depois de sua morte, passou a se chamar Osho – também ensina algumas técnicas.
VIII
Creio que é necessário um movimento nesse sentido, uma adesão a essa tentativa de acalmar a mente, de buscar a paz duas vezes por dia. Ainda mais: creio que é preciso implantar isso nos locais de trabalho, com a mesma ênfase com que se discutiu, há alguns anos, a ginástica laboral. Não raro, os locais de trabalho se tornam locais de sofrimento, frequentemente desumanos. É preciso humanizar, e a meditação pode ser um bom começo para isso. Também nas escolas, preferencialmente a partir de dicas de quem tem a admiração das crianças, dos jovens, e pratica a meditação.
IX
Este texto é só uma introdução, uma tentativa de compartilhar essa angústia e lançar esse debate. Gostaria que você comentasse sua experiência com a meditação pura, com o silêncio interior. Não pretendo abrir espaço, aqui, para a religião. Não é por falta de sentimento religioso, mas para que, nesse momento, os olhos se voltem só para a paz. Frequentemente a discussão sobre religião acaba trazendo uma pitada ou outra de intolerância: há poucos dias, vimos a queima do Al-Corão promovido por uma autoridade religiosa. Não raro, vê-se uma dose de preconceito contra religiões de origem africana. Então, por enquanto, melhor falar no bem e na paz que, suponho, as religiões já estariam até melhor contempladas do que em um debate teológico. A idéia, aqui, é o silêncio interior, a paz interior.
X
Então, seguem as perguntas: seria possível fazermos círculos de meditação, reais e virtuais? Seria possível identificarmos alguns instrutores sérios, que dominem essas técnicas relativamente fáceis, e que não envolvem religião (cada um continuará cultivando a sua), para que possam dar uma aulinha sobre o tema, ensinar suas técnicas? Seria possível fazer grupos para, uma vez por semana, meditar coletivamente, exclusivamente para manter o hábito, a constância? É possível criar esses espaços coletivos?
XI
Acho que o momento é grave, sério, que pessoas de bem estão perdendo o controle, que nós mesmos corremos esse risco. E que é possível fazer alguma coisa de forma aberta, tranquila, sem pretensão de santidade ou de demagogia, mas simplesmente para que acalmemos, todos, nossos corações e possamos travar nossas justas batalhas de forma altiva, generosa, até mesmo ensinando um pouco de doçura a quem cultiva o amargor na vida e no exerc ício de seus temporários cargos.